quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O vira lata. Esta HQ marcou muita gente do circuito undergraund que como eu gostavam de HQ e queriam alguma coisa nova no cenário nacional.




O Vira LATA SAIU DO PRESÍDIO PARA VIRAR CLÁSSICOPublicado pela primeira vez de forma completa, HQ foi importante para falar de temas como drogas e sexo para detentos do extinto Carandiru
Por Porco, do Pula Pirata
O mercado de histórias em quadrinhos no Brasil vive um momento saudável, o que torna bastante propício um olhar para o passado e a aposta na reedição de material antigo e clássico, como é o peculiar caso do personagem O Vira Lata, que fez fama primeiro pelas páginas da saudosa Revista Animal e depois como publicação exclusiva para detentos do presídio de Carandiru, mas só agora chega de forma completa às livrarias de todo os país, numa bela edição da Editora Peixe Grande, detalhando toda a história da publicação e incluindo as sete histórias editadas entre 1991 e 2000, além de uma inédita que nunca antes vira a luz do dia.
Se nos quadrinhos o personagem é filho de uma mãe e cinco pais, na vida real O Vira Lata se tornou uma série de revistas em quadrinhos pela confluência de muitos fatores. No início dos anos 90, o músico e compositor Paulo Garfunkel comentou com seu amigo e também músico Skowa que queria criar um herói urbano brasileiro e tinha um roteiro de HQ pronto, mas sem ninguém para desenhar. Skowa fez a ponte com o também músico e ilustrador Libero Malavoglia, que quase deixa passar o projeto por causa de uma viagem à Europa, mas a simples menção do quadrinista Hugo Pratt (pai de Corto Maltese) como uma influência de estilo os fez querer trabalhar juntos. Depois de terminarem a primeira história fechada, levaram para a Animal que a publicou como o oitavo e último número do especial Grandes Aventuras Animal, em novembro de 1991.
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Foi essa edição lida pelo médico Drauzio Varella (que prestava serviço voluntário no presídio desde os anos 80) que lhe incitou a entrar em contato com os autores e usar o personagem para abordar temas preventivos como o uso de drogas injetáveis e sexo sem proteção em histórias que engajassem os presidiários, coisa que os panfletos caretas da Secretaria de Saúde nunca conseguiu. O resto é história e está muito bem contada no dossiê presente entre a primeiras páginas dessa edição. Uma história pouco divulgada mas muito interessante e importante.

O primeiro capítulo funciona como uma história solo e mostra em cortes paralelos o presente – onde o personagem conhecido com O Vira Lata começa a fazer justiça pelas próprias mãos – e o libidinoso passado de sua mãe nos anos 60. Com um bem construído roteiro, Garfunkel traça a origem do personagem, com todas as idiosincrasias de um samurai urbano brasileiro, mestiço e guiado por Ogum e Exu. Apesar de contar uma história carregada de sexualidade com uma pitada de kenjutsu, o tema principal desse primeiro capítulo era a violência desenfreada na capital paulista, onde grupos de extermínio faziam chacinas cada vez mais abertas contra mendigos, prostitutas e favelados. Tudo isso num traço sujo e um tanto rudimentar que se inspirava claramente não só em Pratt, mas também em Manara, Crepax e Carlos Zéfiro, além da óbvia influência do mangá Lobo Solitário (Kazuo Koike e Goseki Kojima) e das rabiscadas cenas de ação de Frank Miller. O Dr. Varella viu ali um personagem que foi levado a lutar contra injustiças e contra a polícia corrupta da maneira que pode, com suas próprias mãos, além de incluir muitas cenas de sexo e uso de drogas não-injetáveis, perfeito para usar como entretenimento e também como prevenção à DSTs em meio a um público que só se interessava pela sessão de filmes se fossem pornô.
Do segundo capítulo em diante as histórias já eram feitas especialmente para o Carandiru e percebe-se alterações na maneira de conta-la para se adequar aos planos do médico. O próprio presídio torna-se um personagem. Já o Vira Lata, um poético narrador, agora se apresenta como um ex-encarcerado que respeita muito as mulheres, repudia qualquer pessoa que se pica na veia, não sai de casa sem várias camisinhas e trocou seu linguajar de umbanda por expressões típicas do sistema prisional brasileiro. Ele também assume totalmente sua faceta de justiceiro de mil faces, que se envolve mais em tramas investigativas que sempre o levam à cama de uma linda mulher. As cenas de sexo, aliás, passaram de eróticas a explícitas, funcionando não só como mais uma fonte de entretenimento libidinoso para os internos, mas também como lições e tutoriais de como usar proteção durante o ato sexual.

O legal é que, apesar de toda essa carga educativa, o personagem não deixa de ser um anti-herói politicamente incorreto e malandro, que não dispensa uma boa briga e não foge da responsabilidade de ajudar seus amigos nos problemas mais cabeludos, que geralmente envolvem vilões muito comuns e reais à todas as cidades brasileiras. Além disso, é notável que o apuro técnico no traço de Malavoglia vai se fortificando nos pequenos detalhes/enquadramentos a cada capítulo/edição, que culmina com a bela história A Princesa e O Poeta (que conta com intervenções do próprio Drauzio Varela, desenhado) e as belas cenas tórridas da até então inédita história que se passa na Amazônia.
Tanto em termos gráficos como narrativos, O Vira Lata foi uma experiência de se trazer influências de quadrinhos estrangeiros em voga na época para dentro da nossa cultura e acabou se transformando num misto de HQ erótica permeada por temas de educação sexual. É também um produto não só de seu tempo, mas também da influência de seu inesperado grupo de leitores, e deve ser visto por esse espectro. A edição completa da Peixe Grande serve não só como uma boa leitura, mas também como um documento da história dos quadrinhos nacionais.







* Pula Pirata, onde este texto foi originalmente publicado, é um dos sites mais importantes sobre quadrinhos, com destaque à produção independente nacional.

 




 
"Um Par de Sapatos para Antero Quijana".
De Carmélia Aragão.





       Sentou-se exausta no sofá e olhou para a irmã como se dissesse: “desisto”. Mas era o que realmente haveria de ser feito, desistir. O pai, Antero Quijana, seria enterrado descalço. No entanto, na cidade vizinha, os sapatos que as filhas e a viúva procuravam ainda estavam na janela de Rosa Branca do Carmo, que não fazia a menor ideia de que os pés de Antero precisavam deles. Era um par de sapatos sérios, de tons sóbrios, um típico exemplar da presença masculina que o pequeno quarto de Rosa Branca do Carmo nunca tivera, e ela explicava, serenamente, a quem perguntava: “quando cheguei, já estavam aí e aí os deixei”. O pior é que a dona da pensão também dizia o mesmo, ou seja, os sapatos de Antero Quijana não tinham memória.
Porém, devido à gravidade do assunto, com o advento do automóvel e do telefone, o resto ainda estaria por vir, fizeram a filha mais nova bater, naquela mesma noite, à porta da estudante:
— Vim buscar os sapatos de meu pai. Devolva-os.
Fechou a porta na cara da filha mais nova. Ao voltar, estava com o par de sapatos nas mãos, transfigurada na mulher mais bonita da cidade. Quantas noites não sonhara escolhendo peça por peça da roupa, cada dobra da saia, o laço da blusa, a lingerie, as cores da maquiagem, o cheiro do perfume para encontrar ele, o dono do par de sapatos sérios de tons sóbrios?!
Rosa Branca do Carmo chorou, ininterruptamente, 18km. Era mais nova que a filha mais nova, fazia o último ano no colégio de freiras onde era soprano no Coral da Virgem Poderosa, e escrevia, para pagar seu aluguel, contos eróticos sob o pseudônimo andrógino de C.C.
Antero Quijana era um homem de um metro e oitenta e cinco, não era mais moço, mas também não aparentava a idade que tinha. Era o único varão da família. Perdera o pai ainda menino, fora criado pela mãe e pelas três irmãs, as quais, também como ele, que tinha quatro filhas, não geraram filhos homens e, mesmo fora do casamento, as amantes nunca lhe deram um filho. Conta-se que as filhas de suas filhas tiveram outras filhas, e essas geraram mais meninas, as mais belas mulheres, as quais se casaram com estrangeiros ricos e espalharam mais fêmeas pelo Ocidente e pelo Oriente. Ele mesmo contava que, por gostar demais de mulher, seu sangue era feminino e fresco, era quente e arredio, seu deitar era morno e manso. Assim, lhe nasciam mulheres aos montes e lhe chegavam mais para servi-lo.
Rosa Branca do Carmo, ao adentrar a casa, não sabia que encontraria Antero Quijana coberto de flores e com as mãos postas. As outras mulheres se entreolharam sem saber de onde ela vinha, nem porque estava tão bem vestida, imoralmente linda, com os sapatos do falecido na mão.
Fora o homem mais bonito que vira em toda sua vida, os cabelos grisalhos, bem arrumados, a pele branca sem sinal de morte e os pés descalços.
— “Teus cabelos são como um rebanho de cabras descendo impetuosamente pelas encostas de Galaad. Teus dentes são como um rebanho de ovelhas… Tua face é como um pedaço de romã… Há sessenta rainhas, oitenta concubinas e inúmeras jovens mulheres, uma, porém, é a sua pomba, uma só”.
— Louca! — gritou a segunda filha— Calce os sapatos de meu pai e vá embora!
Como todo corpo que morre, as extremidades de Antero Quijana incharam. Antero seria enterrado descalço. Rosa Branca do Carmo, assim como veio, saiu pela porta da frente com os sapatos nas mãos sob os rumores das outras mulheres. A viúva, pela fresta da porta, divisou-a cruzando a varanda, o vestido de veludo azul, os cabelos negros, a pele alva sem tempo.
Mesmo depois de enterrado, Antero Quijana arrastou o amor de Rosa Branca do Carmo com ele. Sentada no meio-fio, com os sapatos nas mãos, conversava sozinha, mas não era tida como louca. Diziam que aquilo passaria com o tempo, afinal, não se morre mais de amor. Mais tarde, assumiu o pseudônimo andrógino de "C.C." e foi embora para a capital. Casou-se. Dizem que escreveu novelas para o rádio e a televisão, mas não se sabe quais ao certo, pois, cuidadosamente, sempre modificava seu nome para que, como os sapatos de Antero, não lhe restasse memória.



Não há memória para aqueles a quem nada pertence.
(Ecléa Bosi)