quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Nossa última homenagem ao grande Leonard Cohen....foi-se o homem e ficou o mito...

 
 
" A certa altura nesses passeios, Breavman apresentou o problema para si da seguinte forma: Breavman, você está apto às mais diversas experiências neste que é o melhor dos mundos possíveis. Tantos belos poemas que vai escrever e pelos quais será elogiado, tantos dias tristes em que não será capaz de nem mesmo colocar a caneta no papel. Haverá muitas e adoráveis boceta onde relaxar, diferentes cores de pele para beijar, muitos orgasmos pela frente, e tantas outras noites em que terá que se livrar do desejo caminhando, amargo e sozinho. Haverá muitos ápices de emoção, intensos fins de tarde, intuições exaltadas, dore criativas e muitos sanguinários platôs de apatia em que não será dono de nem mesmo seu próprio desespero. Haverá ainda muitas boas mãos para jogar com crueldade ou benevolência, céus imensos sob os quais se deitar e se congratular pela humildade, tantas viagens nas galés da mais sufocante escravidão.  "
                                                                                          Leonard Cohen.

um pouco do dandi Leonard Cohen...



 
A maior parte do público conhece Leonard Cohen por sua produção musical; outros, em menor número, o associam a sua poesia. De fato, Cohen é um artista plural e talentoso. Ao longo de uma carreira de sucesso, o canadense buscou diferentes expressões para seu gênio. O início de sua trajetória, na década de 1950, se deu com a publicação de poemas — Cohen tinha então pouco mais de 20 anos, e fora influenciado, na universidade, por leituras de Federico Garcia Lorca, Henry James, William Yeats e Henry Miller.
Estas influências iriam, posteriormente, ter um peso considerável na sua aventura pela ficção, como comprovado em A brincadeira favorita — originalmente lançado em 1963, mas que só agora, através da Cosac Naify, ganha uma tradução para o português (Alexandre Barbosa de Souza).
Há muito de Cohen no protagonista Lawrence Breavman. Por acompanhar o personagem desde a infância, por construí-lo com convicção e delineá-lo com rigor, é possível considerar A brincadeira favorita como um romance de formação, um Bildungsroman. No entanto, como Lawrence flerta com a escrita e com a música, é possível recorrer a uma definição mais precisa: a de Künstlerroman — o que significa que estamos diante de uma obra que mostra, desde os primeiros anos e das primeiras um peso considerável formação de um artista.
Cohen é um escritor hábil, tão à vontade com a prosa quanto esteve, durante sua longa carreira, com os versos e com a música. Sua escrita é gostosa e envolvente: as palavras flutuam e são levadas por uma corrente de melancolia, ainda que, sem perder a convicção ou entrar em contradição, Cohen lance mão de doses de um humor impagável e delicioso. O autor brinca com a voz que narra a vida — e os arredores da vida — de Breavman: ora aproxima, ora afasta o olhar que põe sobre o protagonista e sobre aqueles que compartilharam de sua existência, pondo o foco ora sobre um, ora sobre o outro.
Breavman tem em comum com Cohen o próprio local de nascimento: Westmount, em Montreal, Canadá. Descendente de uma importante família de judeus, pertencente à classe média alta, Breavman tem ao mesmo tempo uma infância privilegiada e alegre e perturbadora. Seu pai, inválido após a guerra, é colocado (ou antes coloca-se deliberadamente) à parte dos parentes: o próprio físico do homem — seu corpo acima do peso que jazia em uma cama — difere do dos irmãos, descritos como magros e altos. Breavman sente essa diferença, e, a seu modo, também cria uma distância dos tios, não concebendo pontos em comum entre eles. O menino cresce em meio aos relatos da Segunda Guerra mundial: os prisioneiros torturados e os soldados que partem para o combate estão presentes nas conversas e nas brincadeiras da criança. Algumas dessas brincadeiras envolvem o contato físico com o sexo oposto, que mesclam sensualidade precoce e a inocência própria da idade e do meio em que fora criado. Lisa é quem descobre com Breavman os encantos do corpo alheio.
Os contatos com o feminino, aliás, fascinam e perturbam Breavman na mesma medida. Cada uma das paixões do personagem deixou nele alguma marca: Lisa, Tamara, Shell e Wanda foram responsáveis por mudanças — ora sutis, ora rapidamente perceptíveis —, e pelo amadurecimento de Breavman. Estas marcas são transformadas em profundas (porém breves) divagações e associações, e são responsáveis por boa parte do emprego do tom onírico da narrativa. Parece curioso que seus enlaces lhe perturbem em tal grau, já que Breavman, tanto quanto possível, interessa-se pelo que ele pode sentir em companhia de cada uma delas, e pela sua visão de uma mulher, sem fixar seu interesse, seu afeto e sua devoção em uma figura de carne e osso, mas a uma ideia preconcebida que faz de suas amantes.
A relação do protagonista com a mãe é conturbada — a própria figura materna de Lawrence Breavman ratifica o mito da mãe judia, eternamente lacrimosa e superprotetora, chantagista e carente de afeto. Breavman se desvia dela, voluntária ou involuntariamente, ao sair de casa depois de ingressar na universidade.
O melhor amigo de Breavman é Krantz, nascido no mesmo bairro e mesma cidade. Os dois estão lado a lado desde os seus primeiros anos — juntos, descobrem as maravilhas do corpo feminino, dão longos passeios de carro por Montreal e arredores (para refletir, para se sentir livres, para se sentir deslocados do tempo), fazem confidências, crescem. Quando se muda de Montreal, Krantz expressa com uma frase singular a amizade dos dois — taciturna e indulgente do lado de Krantz, falante e quase desesperada por parte de Breavman: “A gente precisa parar de interpretar o mundo um para o outro”.
O romance de Cohen não é linear. Começa com pequenos parágrafos curtos, fragmentos de cenas e de memórias, e depois se equilibra e se firma em uma narrativa concreta e maciça, mas nem por isso menos onírica. A vida de Breavman, outrora um menino espevitado e curioso, é transformada (ou ele a transforma?) em uma confusão e em uma melancolia que não raro são próprios do artista adulto. O leitor descobre, ao se enredar nas páginas e na existência do protagonista, muito sobre o próprio gênio de Cohen. Mais do que qualquer coisa, o leitor nota uma prosa deliciosa, cheia de passagens memoráveis — daquelas dignas de serem destacadas, anotadas, lembradas.