quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Nossa última homenagem ao grande Leonard Cohen....foi-se o homem e ficou o mito...

 
 
" A certa altura nesses passeios, Breavman apresentou o problema para si da seguinte forma: Breavman, você está apto às mais diversas experiências neste que é o melhor dos mundos possíveis. Tantos belos poemas que vai escrever e pelos quais será elogiado, tantos dias tristes em que não será capaz de nem mesmo colocar a caneta no papel. Haverá muitas e adoráveis boceta onde relaxar, diferentes cores de pele para beijar, muitos orgasmos pela frente, e tantas outras noites em que terá que se livrar do desejo caminhando, amargo e sozinho. Haverá muitos ápices de emoção, intensos fins de tarde, intuições exaltadas, dore criativas e muitos sanguinários platôs de apatia em que não será dono de nem mesmo seu próprio desespero. Haverá ainda muitas boas mãos para jogar com crueldade ou benevolência, céus imensos sob os quais se deitar e se congratular pela humildade, tantas viagens nas galés da mais sufocante escravidão.  "
                                                                                          Leonard Cohen.

um pouco do dandi Leonard Cohen...



 
A maior parte do público conhece Leonard Cohen por sua produção musical; outros, em menor número, o associam a sua poesia. De fato, Cohen é um artista plural e talentoso. Ao longo de uma carreira de sucesso, o canadense buscou diferentes expressões para seu gênio. O início de sua trajetória, na década de 1950, se deu com a publicação de poemas — Cohen tinha então pouco mais de 20 anos, e fora influenciado, na universidade, por leituras de Federico Garcia Lorca, Henry James, William Yeats e Henry Miller.
Estas influências iriam, posteriormente, ter um peso considerável na sua aventura pela ficção, como comprovado em A brincadeira favorita — originalmente lançado em 1963, mas que só agora, através da Cosac Naify, ganha uma tradução para o português (Alexandre Barbosa de Souza).
Há muito de Cohen no protagonista Lawrence Breavman. Por acompanhar o personagem desde a infância, por construí-lo com convicção e delineá-lo com rigor, é possível considerar A brincadeira favorita como um romance de formação, um Bildungsroman. No entanto, como Lawrence flerta com a escrita e com a música, é possível recorrer a uma definição mais precisa: a de Künstlerroman — o que significa que estamos diante de uma obra que mostra, desde os primeiros anos e das primeiras um peso considerável formação de um artista.
Cohen é um escritor hábil, tão à vontade com a prosa quanto esteve, durante sua longa carreira, com os versos e com a música. Sua escrita é gostosa e envolvente: as palavras flutuam e são levadas por uma corrente de melancolia, ainda que, sem perder a convicção ou entrar em contradição, Cohen lance mão de doses de um humor impagável e delicioso. O autor brinca com a voz que narra a vida — e os arredores da vida — de Breavman: ora aproxima, ora afasta o olhar que põe sobre o protagonista e sobre aqueles que compartilharam de sua existência, pondo o foco ora sobre um, ora sobre o outro.
Breavman tem em comum com Cohen o próprio local de nascimento: Westmount, em Montreal, Canadá. Descendente de uma importante família de judeus, pertencente à classe média alta, Breavman tem ao mesmo tempo uma infância privilegiada e alegre e perturbadora. Seu pai, inválido após a guerra, é colocado (ou antes coloca-se deliberadamente) à parte dos parentes: o próprio físico do homem — seu corpo acima do peso que jazia em uma cama — difere do dos irmãos, descritos como magros e altos. Breavman sente essa diferença, e, a seu modo, também cria uma distância dos tios, não concebendo pontos em comum entre eles. O menino cresce em meio aos relatos da Segunda Guerra mundial: os prisioneiros torturados e os soldados que partem para o combate estão presentes nas conversas e nas brincadeiras da criança. Algumas dessas brincadeiras envolvem o contato físico com o sexo oposto, que mesclam sensualidade precoce e a inocência própria da idade e do meio em que fora criado. Lisa é quem descobre com Breavman os encantos do corpo alheio.
Os contatos com o feminino, aliás, fascinam e perturbam Breavman na mesma medida. Cada uma das paixões do personagem deixou nele alguma marca: Lisa, Tamara, Shell e Wanda foram responsáveis por mudanças — ora sutis, ora rapidamente perceptíveis —, e pelo amadurecimento de Breavman. Estas marcas são transformadas em profundas (porém breves) divagações e associações, e são responsáveis por boa parte do emprego do tom onírico da narrativa. Parece curioso que seus enlaces lhe perturbem em tal grau, já que Breavman, tanto quanto possível, interessa-se pelo que ele pode sentir em companhia de cada uma delas, e pela sua visão de uma mulher, sem fixar seu interesse, seu afeto e sua devoção em uma figura de carne e osso, mas a uma ideia preconcebida que faz de suas amantes.
A relação do protagonista com a mãe é conturbada — a própria figura materna de Lawrence Breavman ratifica o mito da mãe judia, eternamente lacrimosa e superprotetora, chantagista e carente de afeto. Breavman se desvia dela, voluntária ou involuntariamente, ao sair de casa depois de ingressar na universidade.
O melhor amigo de Breavman é Krantz, nascido no mesmo bairro e mesma cidade. Os dois estão lado a lado desde os seus primeiros anos — juntos, descobrem as maravilhas do corpo feminino, dão longos passeios de carro por Montreal e arredores (para refletir, para se sentir livres, para se sentir deslocados do tempo), fazem confidências, crescem. Quando se muda de Montreal, Krantz expressa com uma frase singular a amizade dos dois — taciturna e indulgente do lado de Krantz, falante e quase desesperada por parte de Breavman: “A gente precisa parar de interpretar o mundo um para o outro”.
O romance de Cohen não é linear. Começa com pequenos parágrafos curtos, fragmentos de cenas e de memórias, e depois se equilibra e se firma em uma narrativa concreta e maciça, mas nem por isso menos onírica. A vida de Breavman, outrora um menino espevitado e curioso, é transformada (ou ele a transforma?) em uma confusão e em uma melancolia que não raro são próprios do artista adulto. O leitor descobre, ao se enredar nas páginas e na existência do protagonista, muito sobre o próprio gênio de Cohen. Mais do que qualquer coisa, o leitor nota uma prosa deliciosa, cheia de passagens memoráveis — daquelas dignas de serem destacadas, anotadas, lembradas.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Um pouco de João Silvério Trevisan para alegrar a nossa quinta-feira chuvosa

Interlúdio em San Vicente

João Silvério Trevisan


um gosto de vidro e corte
um sabor de vida e morte
coração americano.
(Canção de Milton Nascimento/Fernando Brandt)


Eram as sete da manhã quando ele meteu a cabeça pela janela do trem e respirou o ar úmido e frio de San Vicente. Não podia mais duvidar. Estava ali, inteiramente em San Vicente. Ainda sentia restos de incerteza, o corpo débil de fome e medo, o medo que vivera naqueles últimos dias. Na fronteira, apesar da tensão, o trem se iluminara todo e uma velha canção crescera esganiçada e percorrera com súbita excitação a todos os passageiros, enquanto a voz antiga saudava naquela língua que, em sua fantasia, lhe soava como o som essencial da. América Latina: "Buenas noches, senõras y senõres. Están ustedes en la República de San Vicente. Bienvenidos sean, en nombre de nuestro pueblo hospitalario. Esta es la tierra..." Depois vieram as planícies molhadas, verdes e tranqüilas, a paisagem para ele inusitada, as vacas holandesas, as casinhas de pedra escura. Apesar de estar ali tão próxima, essa terra sempre lhe parecera mais distante que a Europa. Refletiu ligeiramente sobre o colonialismo, enquanto ia descobrindo uma secreta intimidade com aquela paisagem que ele amara antes mesmo de conhecer. Enterneceu-se por estar ali, e lhe invadiu um sentimento de alívio e uma momentânea esperança de estar movendo-se para frente, apesar de tudo. Afinal, queria buscar a certeza de que apenas voltava para o meio de irmãos por tanto tempo ausentes, estrangeiros. Depois, duvidou de tudo o que vinha pensando, achando-se um pobre romântico. Por sorte, a fronteira não estivera demasiadamente controlada, e essa sim lhe parecia uma certeza reconfortante porque objetiva. O trenzinho já tinha penetrado quilômetros dentro de San Vicente, seu apito e sua fumaça reencontrando os bananais familiares, e ele respirava com força os ares novos, quando o velho Chevrolet aparecera ao longe fechando o caminho, e todos os passageiros foram obrigados a descer, sem explicações. Ele ouviu alguém sussurrar "policía" e foi o bastante para que o pânico lhe acelerasse o sangue; pensou se não deveria fugir, depois controlou-se. Vários homens que usavam óculos de sol, apesar da noite, examinaram cada mala, sua valise inclusive. Ele buscava convencer-se de que não havia perigo, mas sabia que as metralhadoras dos agentes estavam carregadas com a morte e isso lhe cortava a respiração. Mais tarde, soube que procuravam armas de supostos guerrilheiros, que todos os caminhos estavam vigiados e que o país corria o risco de um estado de sítio imediato. Pensou que sim, aquela era a América Latina. Não conseguira dormir em toda a viagem porque sentira frio e fome, nesse seu primeiro dia em San Vicente. Então, às 7 da manhã, ele estava na capital. Olhou para fora e pensou como sempre fora difícil aos brasileiros sentirem-se latino-americanos. Havia uma neblina grossa dispersando-se pela cidade e já começava a cair numa chuvinha fina, européia, que era na verdade a chuva de San Vicente. Deixou a estação, para procurar um hotel barato. As pessoas passavam apressadas ao seu lado, agasalhadas e como que saídas de um sonho que já fora quase um pesadelo. Pensou no que poderia ter acontecido a seus amigos, onde estariam, vivos? torturados? destroçados? Viu-se desamparado como um bebê, mas evitou a melancolia para não sentir-se infeliz. Andou mais depressa, pensando deixar o passado definitivamente atrás. Entretanto, via o passado ali, envolvendo-o. As casas eram antigas, os carros soltavam fumaça e ensurdeciam com seus motores ancestrais, e homens velhos cruzavam por ele, incomodamente reais como uma luz que ofuscava. Andou sem rumo, com medo de pedir informação numa língua estranha. Por acaso, viu a tabuleta do hotel, num edifício que poderia ter sido novo no começo do século. Olhou as janelas quebradas, as portas comidas pela chuva, mas resolveu entrar. 0 tilintar de um sininho fez surgir o rosto pintado de uma mulher, chegando-se com seu cabelo matinal já enrolado e um velho peignoir de flores desbotadas. Ele engasgou na primeira palavra. E ela: Ah, que bién. Usted es brasilero, verdad? Pues aqui tenemos gente de todas partes. Las recámaras son chicas pero, ay, que servicio! Creame, señor, que usted no encontrará nada mejor y más barato. Además, tenemos agua calientita por la mañana... Ele dormiu até as 12, encolhido no meio dos cobertores que cheiravam a mofo, e quando acordou, estava decididamente longe de tudo, num outro mundo onde os tapetes persas já tinham sido vistosos e os móveis falavam de lembranças sem fim. Ouviu lá fora um rádio tocando um merengue distante e anúncios em espanhol que lhe pareceram quase ridículos. Comeu no próprio hotel, engolindo em silêncio enquanto a dona servia e falava: Ahora todo anda mal. Usted sabe, todo muy caro, hasta la carne. Este país ya no es lo mismo. Mire usted lo que come, esta carne fué nuestro orgullo. San Vicente alimentó el mundo, un dia. Y ahora, vayá, estamos aqui comiendo esta carnita que uno pelea para encontrar.

Ele procurou o furo no bolso do capote e tirou um minúsculo. papel amarrotado. Abriu-o e tentou decorar nome e endereço. Era a única referência que conseguira de última hora. Saiu e andou muito, respirando a fumaça dos carros, penetrando-se pouco a pouco daquela atmosfera estranha e incômoda que ele temia identificar, apressadamente, com a decadência. Buscava então descobrir alguma revelação escondida detrás das paredes e janelas e portas dos edifícios igualmente carcomidos de esquecimento. Cruzou um parque. As árvores pingavam-lhe pesadas gotas frias, sobre sua cabeça acostumada ao calor e ao suor. Depois, encontrou a casa que buscava. O senhor estava de viagem e só regressaria dentro de dois dias. Voltou para o parque e sentou-se num banco de pedra, pensando no que deveria fazer. Levantou-se para ir — ir onde? — e virando a cabeça recebeu o choque: viu os soldados que se espalhavam por entre as árvores. O terror de volta, ele pensou rápido; decidiu sentar-se outra vez para não despertar suspeita. Não conseguiu desviar a atenção deles, nem mesmo fixando-se na imensa estátua do herói nacional, coberta de pombos e de seus excrementos. Um soldado aproximou-se e lhe gritou algo que ele não compreendeu. Murmurou apenas que era brasileño, tentando buscar uma defesa para o medo que sabia estar brilhando dentro de seus olhos. E o soldado gritava mais e ele não podia entender, imobilizado no banco. Então sentiu o cano da metralheta no peito e automaticamente levantou-se. "Y por que no te paravas, carajo?” lhe disse o soldado e depois examinou seus documentos, perguntou-lhe o que fazia, turista? si, pero no puede estar así, nomás por ser turista; a caminar, a caminar. Ele caminhou então, no meio da bruma, como o foragido que era.

No segundo dia em San Vicente, ele dormiu até muito tarde, adiando a responsabilidade de sofrer o frio e a chuva. Cada vez que pensava em caminhar sem rumo, encolhia-se mais entre os cobertores. Acordou várias vezes e pensou ligeiramente que se acreditasse poderia rezar, pedir ajuda a um deus onipotente, um grande pai. Ao invés, ficou apenas olhando o vazio, sentindo vazios os sons de rádio, do lado de fora. No fim da tarde, sem outra alternativa, saiu de novo à procura de nada, entre os carros e todos os anciãos do mundo, depositados naquelas ruas. Diante de uma loja, julgou ouvir palavras em português. Tinha os olhos de um louco e nem percebeu que corria. Fugindo, estava dentro de um bar. Pediu um café. Tomou-o engolindo o gosto estrangeiro, desejando o cafezinho do passado tão recente. Não, não podia ficar triste, tinha o futuro pela frente, depois que o pior já passara. Com uma batida no seu ombro, a realidade chamou-o mais do que inesperada. Virou-se quase em defesa e viu as mãos gesticulando, as rugas do rosto e a boca que se abria sem som. Eram súplicas da desgraça, que lhe parecia um demônio, ou da loucura, esta loucura onipresente, a condenação demasiada para um só momento, uma só cidade. Na rua, fugindo outra vez em largos passos, pôs-se furioso consigo mesmo lembrando-se tarde demais que ele era parte daquela miséria, já no seu sangue, e não podia rejeitar a maldição como uma estranha, porque estava positivamente ali, entre os malditos. Sabia dessa sorrateira quase-morte, lutara com ela toda a vida e não tinha o direito de assustar-se como se tivesse sido um homem feliz. Pensou vagamente na felicidade e numa vaga proteção, enquanto regressava para a cama. Onde estou? Como salvar-me? Naquela noite dormiu tentando conformar-se com a possibilidade de lindos sonhos que o despertassem de um pesadelo, o seu.

No terceiro dia, ele levantou cedo, decidido a não entregar-se. Foi buscar de novo a casa do possível amigo. Atravessou outra vez o parque em bruma, olhou a estátua grotescamente adornada com a bosta dos pombos, quis sentir-se forte. Recebeu-o na porta da casa um jovem com cara de universitário. Quando se identificou e mencionou o amigo comum, viu o terror exposto nos olhos do rapaz. Foi imediatamente convidado para um passeio no parque e ali ouviu a voz aguda desculpando-se, no meio das árvores estrangeiras.

— Usted comprenderá. Hace mucho que no veo al amigo este. Y desde luego, no quiero meterme en nada de política, por favor. Usted me comprende, tengo a mi madre ya vieja y hermanos más chicos.

O rapaz ofereceu-lhe companhia, caso desejasse; usted sabe, por unas moneditas lhe encontraria una mamacita com quem se divertisse, e como! Pero mejor nos encontramos en el centro.

Olhava a praia então. Agradecera o rapaz e se fora, mas os dentes lhe doíam de frio e raiva contida. Sentou-se na amurada, olhou o mar barulhento, ouviu o vento que levantava a areia escura. O mar parecia trazer a tempestade em suas grandes ondas. E as gaivotas não lhe davam paz, ele que amava tanto as gaivotas. Mas também não sentia nenhuma tristeza, apenas olhava. Antes de acontecer toda aquela confusão e sua fuga, sempre se orgulhara de poder chorar. Agora devia conter-se, pensava, mas também não sabia porque. Devia manter-se frio como... Como o quê? Como um macho? Melhor ainda, como um herói! Riu por dentro, pensando nessas ficções que sempre o irritaram. Por um momento, escondeu o rosto entre as mãos e o cheiro de sal empurrou-o para adiante. Seguiu caminhando junto à amurada em ruínas e encontrou um homem a tocar violino, parado. Viu ódio no rosto contorcido que tirava sons finos e que brigava com o som mais e mais agudo. Andou devagar. Tentava comover-se com o vento arrebatando a música e levantando os negros cabelos daquele rosto em fúria, mas já não podia chorar. Enquanto deixava para trás o violino, lembrou de repente. Parou, para lembrar melhor e decidir se valia a pena.

Então buscou uma lista telefônica. Sim, o nome estava lá, com o endereço e telefone. Era um conhecido de um amigo dos velhos tempos, antes da luta. Telefonou, a voz respondeu neutra e depois sí, por supuesto, tanto gusto. Sentiu-se subitamente alvoroçado. Não lhe importava, ouvira uma voz falando-lhe tão perto e com ansiedade esperou chegar as oito. Até lá, recebendo na cara as sombras úmidas que encobriam San Vicente, ele descobriu o tamanho trágico de sua solidão e foi só nisso que pensou e foi essa a mais aguda dor que descobriu dentro de si, enrijecida e absoluta. Dirigiu-se para o endereço que conseguira e pelo caminho foi tropeçando com o sentimento de que estava só. Quando tocou a campainha, percebeu que implorava qualquer coisa parecida com um gesto, apenas pequeno ou obscuro, de afeto. Uma cara gorda de homem assomou pela janelinha e depois a mesma cara sorriu enormemente pela porta aberta.

— Soy el señor brasileño...

— Si, claro, yo lo sabía. Pase usted. Ay que divino país el suyo.. La gente brasileña, que bella gente, dios. Y la samba, me encanta, me encanta.
Era uma casa pretensamente burguesa, um falso ar de sofisticação nos pequenos bustos de compositores clássicos, móveis coloniais recém-fabricados, um piano, bibelôs por todos os lados e aquela harpa no centro da sala, como uma estranha:

— Que bella, no? Fíjese usted que me enloquecía el harpa. Pero no encontré sino esta; claro, no tiene nada que ver con esas harpas de las sinfónicas: Aún así me la compré. Es mejor que nada...

E ria muito o anfitrião, grandes risadas que pontuavam os intervalos rápidos entre um assunto e outro.

— Si le gusta, le pongo unas canciones folclóricas de San Vicente. A mi se me hacen bellíssimas. Tristes, pero bellas.

E chiava então o disco na vitrola, guitarras de San Vicente, um intenso som de nostalgia, a imagem que lhe estivera sempre no peito, sonhos sobre revolução, sobre continente, a voz de um povo e vários povos nas guitarras de San Vicente.

— Antes, todo aqui era una fiesta, en cualquier hora del dia y de la noche. Los más famosos casinos del mundo, los artistas de Holiud paseando con sus coches último modelo, grandes bailes, grandes orgías. Cuanto más escándalo había, más brillaba el nombre de San Vicente. Ay, pobre tierra mia. Ya se fueron los buenos tiempos.

Uma pausa, um suspiro, a música no fundo, os chiados, os bibelôs e a poeira infiltrada neles.

- Nos quitaron todo. San Vicente no es sino la sombra, la miséria...

Na outra pausa, terminou o disco.

— Pero basta ya de tristezas. Esas las tenemos sin pedirlas. Así que vamos a la cena. No es un banquete, pero el Arturo sabe preparar platos típicos. Y ricos, ricos. Usted va a ver.

Sentaram-se. Ele tinha fome e sede. Tomou muito vinho e sentiu-se mais tranqüilo, sem perguntar porque, mas sim, certa paz nas veias distendidas.

Depois, sorriu quando Arturo regressou vestindo um avental florido; parecia-lhe quase materna aquela figura que ia e vinha preparando o café. Olhou então para a parede oposta e descobriu um grande quadro de onde lhe sorria um toureiro, olhos chispantes, lábios sensuais e uma beleza que se irradiava através do rosto, lhe percorria a roupa brilhante e espraiava-se pelo vermelho interminável de sua capa. Olhou-o e os pensamentos correram velozes, por toda a vida passada, pequenos incidentes, paixões passageiras, solidão crônica. E não percebia que olhava como se beijasse e que lhe oprimia, nessa ocasião, a certeza de estar metido num charco sujo, escuro, nojento, pegajosamente presente ao seu corpo, de solidão. Quando voltou os olhos, mais que melancólicos, Arturo o olhava.

— Preparé un cafessirño brasileño. Ya me dirá...

Arturo apressou-se em instalar a bandeja, sentou-se, alisou o babado do avental e, enquanto servia açúcar, soltou uma voz lisa como veludo, sorrateira como nenhuma outra poderia ter sido:

— Así que a usted también le gustan los muchachos .

O outro sentiu-se um pouco incômodo. Depois fingiu mal-estar. Em seguida, entregou-se e baixou os olhos.

— No se preocupe usted. Yo sé muy bién que ya estoy viejo. No voy a hacer sugerencias inmundas, ni pensarlo.

Ele olhou os olhos de Arturo e Arturo compreendeu. Seria súplica ou simplesmente solidão, mas Arturo entendeu.

— Si gusta, puedo hacerle un regalo. Basta nomás llamar por teléfono. Papá Arturo ya tiene todo organizado, después de tantos anos...

Trocaram olhares, sem sim nem não. Depois, submergiram-no apenas os gestos sonhados, entre a permanência de fantasias insaciáveis, sempre, e agora ele descansava, paciente, saboreando a presença absoluta da realidade por chegar. Não esperou muito. A campainha tocou, a porta se abriu, e ele não quis olhar para trás nem antecipar-se, esperando que a realidade chegasse inteira diante de si e se apresentasse:

— Buenas noches. Me llamo Antonio.

Levantou os olhos devagar e encheu-os com a cor morena de um jovem índio e, enquanto olhava detidamente, teve pressa e imaginou que suas mãos tocavam já aquelas faces morenas e rosadas, aquele cabelo negro, os lábios grossos, os olhos feitos de mansidão e as mãos que caiam infinitas, esperando gratuitas um gesto. Ele pensou então que a beleza apaziguava, não, pensou, choca, maltrata, não, é tão somente bela, a beleza. E lembrou-se que nem respondera à saudação.

— El cuarto ya está listo. Ponganse cómodos. Y tu, Antonio, sé bueno con el señor. No, no agredezca, señor, es que quiero mucho a los brasileños. Pase usted, pase, pase.

Fechada a porta, ele apagou a luz, deitou-se e parecia dormir mas não dormia porque seu nariz se impregnava de todos os pequenos cheiros, o cheiro do jovem índio sobretudo, e queria apenas estar ali, gozando longamente a sensação de calor que se aproximava invadindo-o, aquele corpo envolvendo-o em silêncio de amor. Sem ruído, fechados os olhos, sem coragem de admitir senão a difusa crença da felicidade, por um momento tornada real, ele pediu:

— Por favor. Io necesito um abrazo.

E Antonio ouviu-o. E foi único e longo e jamais esquecido o abraço daquela noite.

— Pero señor, nomás un abrazo? Perdóname la palabra, pero esto es una tontería. Justo con Antonio, tan guapo, tan caliente, fuerte. Y a él le gusta muchísimo, yo sí se. Esto es como tirar perlas por la ventana.

No outro dia ele decidiu. Ainda havia névoa por toda parte, e frio e as casas arruinadas e os mesmos carros barulhentos de San Vicente. Importava-lhe apenas que ele se sentia seguro e decidira. Cruzou de manhã a neblina, pensando nalguma esperança, no futuro, naquilo que iria encontrar mais adiante, sentindo-se um perfeito foragido. Viajou horas de ônibus até o sul, no meio da bruma. Não esperou muito no porto. Viu ao longe o mar que era primeiro marrom depois verde e azul. Subiu as escadas do barco, olhou San Vicente detrás de si.

México, 27 de maio de 1975.


João Silvério Trevisan (1944) nasceu na cidade de Ribeirão Bonito (SP). Escritor com domínio da prosa, é ensaísta, dramaturgo, tradutor, jornalista, coordenador de oficinas literárias, roteirista e diretor de cinema. Estudou Filosofia. Recebeu inúmeros prêmios em teatro, cinema e literatura, dentre os quais o Concurso Latinoamericano del Cuento, em Puebla – México, o Jabuti (três vezes) e o da Associação Paulista dos Críticos de Arte - APCA (duas vezes). Tem obras traduzidas para o inglês, o alemão e o espanhol. Escreve para jornais e revistas de todo o País e do exterior.

Alguns livros de autoria de
Trevisan:

Testamento de Jônatas Deixado a David (contos, 1976).
As Incríveis Aventuras de El Cóndor (romance juvenil, 1980).
Em Nome do Desejo (romance, 1983).
Vagas Notícias de Melinha Marchiotti (romance,1984).
Devassos no Paraíso (ensaio histórico-antropológico, 1986).
O Livro do Avesso (romance, 1992).
Ana em Veneza (romance, 1994).
Troços & Destroços (contos, 1997).
Seis Balas num Buraco Só: A Crise do Masculino (ensaio, 1998).


Texto extraído da revista “Ficção”, volume II, exemplar n° 7, de Julho de 1976, pág. 82.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Um pouco de Caio Fernando Abreu nesta tarde chuvosa.

Existe sempre uma coisa Ausente - Caio F.
Paris — Toda vez que chego a Paris tenho um ritual particular. Depois de dormir algumas horas, dou uma espanada no rodenirterceiromundista e vou até Notre-Dame. Acendo vela, rezo, fico olhando a catedral imensa no coração do Ocidente. Sempre penso em Joana d’Arc, heroína dos meus remotos 12 anos; no caminho de Santiago de Compostela, do qual Notre-Dame é o ponto de partida — e em minha mãe, professora de História que, entre tantas coisas mais, me ensinou essa paixão pelo mundo e pelo tempo.

Sempre acontecem coisas quando vou a Notre-Dame. Certa vez, encontrei um conhecido de Porto Alegre que não via pelo menos á2o anos. Outra, chegando de uma temporada penosa numa Londres congelada e aterrorizada por bombas do IRA, na época da Guerra do Golfo, tropecei numa greve de fome de curdos no jardim em frente. Na mais bonita dessas vezes, eu estava tristíssimo. Há meses não havia sol, ninguém mandava notícias de lugar algum, o dinheiro estava no fim, pessoas que eu considerava amigas tinham sido cruéis e desonestas. Pior que tudo, rondava um sentimento de desorientação. Aquela liberdade e falta de laços tão totais que tornam-se horríveis, e você pode então ir tanto para Botucatu quanto para Java, Budapeste ou Maputo — nada interessa. Viajante sofre muito: é o preço que se paga por querer ver “como um danado”,feito Pessoa. Eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio.

Enrolado num capotão da Segunda Guerra, naquela tarde em Notre-Dame rezei, acendi vela, pensei coisas do passado, da fantasia e memória, depois saí a caminhar. Parei numa vitrina cheia de obras do conde Saint-Germain, me perdi pelos bulevares da le dela Cité. Então sentei num banco do Quai de Bourbon, de costas para o Sena, acendi um cigarro e olhei para a casa em frente, no outro lado da rua. Na fachada estragada pelo tempo lia-se numa placa: “II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente” (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) — frase de uma carta escrita por Camilie Claudel a Rodín, em 1886. Daquela casa, dizia aplaca, Camille saíra direto para o hospício, onde permaneceu até a morte. Perdida de amor, de talento e de loucura.

Fazia frio, garoava fino sobre o Sena, daquelas garoas tão finas que mal chegam a molhar um cigarro. Copiei a frase numa agenda. E seja lá o que possa significar “ficar bem” dentro desse desconforto inseparável da condição, naquele momento justo e breve — fiquei bem. Tomei um Calvados, entrei numa galeria para ver os desenhos de Egon Schiele enquanto a frase de Camille assentava aos poucos na cabeça. Que algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede, faz parte. E atormenta.

Como a vida é tecelã imprevisível, e ponto dado aqui vezenquando só vai ser arrematado lá na frente. Três anos depois fui parar em Saint-Nazaire, cidadezinha no estuário do rio Loire, fronteira sul da Bretanha. Lá, escrevi uma novela chamada Bem longe de Marienbad , homenagem mais à canção de Barbara que ao filme de Resnais. Uma tarde saí a caminhar procurando na mente uma epígrafe para o texto. Por “acaso”, fui dar na frente de um centro cultural chamado (oh!) Camille Claudel. Lembrei da agenda antiga, fui remexer papéis. E lá estava aquela frase que eu nem lembrava mais e era, sim, a epígrafe e síntese (quem sabe epitáfio, um dia) não só daquele texto, mas de todos os outros que escrevi até hoje. E do que não escrevi, mas vivi e vivo e viverei.

Pego o metrô, vou conferir. Continua lá, a placa na fachada da casa número 1 do Quai de Bourbon, no mesmo lugar. Quando um dia você vier a Paris, procure. E se não vier, para seu próprio bem guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo.

20 anos sem Caio Fernando Abreu!

Tive uma relação extranha com Caio Fernando Abreu! Ele amigo pessoal de Mário Prata; este de não saia de Uberaba, e e u amigo de seus familiares...a família Prata em Uberaba onde eu era estudante. Caio Fernando Abreu fazia parte de nosso imaginário literário com seus textos maravilhosos quando falava da vida. Eu sempre escrevi sobre a urbanidade, e este mentor era para nós  escritores iniciantes o máximo quando se falava em algo que viesse da cidade. Ele sabia representar a cidade grande, ses medos, suas fobias e principalmente suas histórias. Um dia o vi junto com Mário Prata em um restaurante em Uberaba...eu era apenas um estudante, mas o homem alto, fino e elegante, de umara cara já sulcada pela doença; ficou guardada na minha memória. Um mito de pavor e admiração em um rosto jovem e ao mesmo tempo cançado. Saua alma dúbia sempre destrutiva e melancólica deu sentido a uma alma que passou a vida inteira querendo se matar; mas quando o único mal inevitável da criação...como diria Ariano Suassuna, se abateu sobre ele...ele ansiava por viver. E isto passou a me fascinar ao longo da vida quando passei a escrever sobre os males e alegrias da cidade...Requiescat in pace Caio...

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Cocaína, Walt Whitman e mais uns versos...Acabei de ler...Indico a todos...

Cocaína, Walt Whitman e mais uns versos



Cocaína, Walt Whitman e mais uns versos
Resenha escrita por Rodrigo Sarubbi
“Um bar fecha dentro da gente” é um livrinho tão curto que dizer que dá para ler em uma sentada é sacanagem com os outros livros que se leem em uma sentada. Publicado pela portuguesa Douda Corrêa e escolhido pelo jornal Expresso de Portugal como um dos 10 lançamentos literários de 2015, por indicação do respeitado poeta português Manuel de Freitas, o livro do manauara Diego Moraes pode ser lido entre um pum e outro, a depender do nível de peidorrice do leitor. Mas não é isso o que importa, mesmo. Há livros de mais de 500 páginas que não dizem nada com nada (palavras do poeta, e eu sou obrigado a concordar), ao menos nada que preste. O de Diego tem 32. Nem lombada tem. A capa é branca com uns rabiscos pretos, no melhor estilo fanzine. Mas, porra, é de tirar o chapéu.
Não é difícil desgostar do amazonense. Marrento, ele xinga mesmo. Se você for mimimi não dura dois tempos. Eu mesmo me enquadro em pelo menos meia dúzia de estereótipos em que ele curte mijar, mas o fato é que a espontaneidade e a meia dúzia de sacadas que ele tem por dia atropelam qualquer tipo de orgulho. É leitura que vicia. Por mais que alguns contos de facebook sejam até ruinzinhos, muitos são uma bomba. Como esse livro que tenho em mãos, uma bomba inteira. Seus inimigos dirão que ele repete fórmulas batidas, que só faz falar em cocaína e Walt Whitman e poesia, e que fala muito nessas coisas para disfarçar a falta de conteúdo real. Seus fãs dirão que essa repetição é o que dá uma identidade conceitual ao trabalho e que o poeta é coerente com suas referências. Nada disso importa. Se você lê “Quando/ Um amigo morre/ Parece que um bar/ Fecha dentro da gente.”, ou “Escrever para si mesmo ainda é poesia. Quem escreve para si mesmo tem os braços grandes e pode se abraçar com força.” e ainda assim achá-lo pobre, ele não tem nada pra falar contigo, melhor vazar. E olha, talvez eu também não tenha, porque conteúdo ali é o que não falta, basta colocar o preconceito de lado e ler o tal do livro, mas ler de coração aberto.
Na minha pobre opinião, o grande mérito desse trabalho é o olhar. O olhar faz do resto penduricalhos. Você pode ter um ritmo do cacete, conhecer palavras escabrosas, saber até usar a tal da métrica, mas se quando você vê o mundo você não enxerga música, lamento, mas um belo poeta de bosta é o que você deve ser. Poesia é tirar o leitor do chão. É transportá-lo para outra maneira de viver e sentir e perceber o mundo que através de um abraço ou um beijo ou uma trepada talvez não dê (embora para um monte de coisas coisas eles sejam foda demais). Lendo o livro do Diego eu noto sua intensidade. As imagens que ele cria, putz! “Tirar alguém do porta-retrato é como fazer uma cirurgia de apendicite.” Apêndice é um troço inútil que quando resolve existir na vida da gente é só para doer pra cacete. Algumas ex também. Inclusive algumas atuais, afinal “O peito do poeta/ É uma cidade cheia/ De amores suspeitos”.
Não ser autêntico é o único pecado que um poeta não pode cometer. Diego tá safo, então.
Autor: Diego Moraes
Título: Um bar fecha dentro da gente
Editora: Douda Correria
Ano da edição: 2015
32 páginas
Avaliação: ★★★★ (imperdível)

A poesia marginal de Diego Morae...nos mostra que a poesia marginal ainda nos eleva a quinta potência. Só alguem que viveu nas ruas de São Paulo pode nos dar essa sensação...

Diego Moraes


Diego Moraes é um escritor brasileiro, nascido em Manaus, Amazonas, a 23 de agosto de 1982. É autor do livro de contos A fotografia do meu antigo amor dançando tango (2012) e da coletânea de poemas A solidão é um deus bêbado dando ré num trator (2013), ambos lançados pela Editora Bartlebee.

Os dois primeiros poemas abaixo são inéditos, seguidos de alguns textos selecionados de seu último livro. Encerro a postagem com um conto de A fotografia do meu antigo amor dançando tango (2012). Diego Moraes vive e trabalha em Manaus.

--- Ricardo Domeneck

§

POEMAS DE DIEGO MORAES

Inéditos


Repare bem
O amor é paranormal
Quando ela cuspiu na sua cara e disse que tudo havia acabado
Os talheres entortaram e a prataria do seu avô enferrujou
Agora vai lá na cozinha e chora escutando Dolores Duran
        [no radinho de pilha.

§

Mergulhar
Nesta
Pororoquinha
Que
Você
Teima
Chamar
De
Antologia
De
Suas
Melhores
Recaídas.
Secar
Tuas
Camisetas
De
Bandinhas
Death Metal
No
Ventilador Arno
 “Bota no volume máximo!”
Você
Grita
Enquanto
Walt Whitman
Descansa
De
Bruços
Num
Gramado
Dentro
Dos
Sonhos
De
Roberto Piva.

§

De  A solidão é um deus bêbado dando ré num trator (2013)



Você disse que sonhos é como fazer musculação
Você disse que Vou à Bahia leva crase
Você disse que queria adotar um cachorrinho e fazer Teatro
         [de Rua em São Paulo
Você disse que Roberto Piva era o poeta mais lindo do mundo
Você disse tantas coisas bacanas quando eu tava fudido
Você disse que eu sairia dessa e levou livros e cigarros quando
         [eu tava internado naquela clinica para drogados
Você foi minha garota e foi foda ver seu sorriso de mãos dadas
         [com outro cara
Sempre fico sem jeito com o meu passado
Nessas horas eu queria ser invisível ou ter asas.

§

Bússolas quebradas
Cartas anônimas nunca me disseram nada
Isso não é literatura. É só minha dívida no Bradesco.

§

Você não deveria estar aqui
Seu namorado tá lá fora fumando Lucky Strike e ouvindo
      [uma canção do Jeff Buckley no rádio de um cadilac
      [que nunca foi dele
Você não deveria estar aqui
O que tínhamos pra conversar virou aquele roxo que a
      [madrugada perdoa
O que tínhamos pra conversar virou aquelas bolinhas de
      [luz que vão ficando para trás quando o taxista passa
      [a quarta marcha e olha pelo retrovisor
Você não deveria estar aqui
Daqui nove meses uma criança nasce com meu nome
Daqui nove anos vai lembrar que eu poderia ter sido
      [o melhor para sua vida
Daqui vinte anos vai lembrar que seu garoto parece comigo
      [e seria lindo sair num final de semana para pescar ou
      [visitar os amigos
Você não deveria estar aqui
Fecha a porta e me esquece
Deixa-me adubar o tédio.

§

O amor anda de ônibus.

§

Talvez eu seja o único cara andando a pé do centro a nova
      [cidade
Recolhendo restos de coisas do século passado e transformando
      [em livros
Chorando, ouvindo aquela canção do Neil Young da boca de
      [um mendigo.

§

Rejuvenescer
Tornar-se loirinho fazendo caretas na fazenda
Tacando pedras
Correndo atrás dos bichos com apelidos dados na inocência da
       [infância
Amadurecer lentamente como fruta fora da fruteira
Iludir-se
Inventar amores distantes só pra dedicar ternuras pela internet
Poesia: enfeite para o fundo do mar.

§

Ela havia me falado do tio que escrevia poemas e morreu
     [atropelado em Mairiporã
Da linha invisível que protege a cidade de incêndios
De como era bom tingir os cabelos e sentir a brisa poderosa
     [de domingo
Quando o amor aparece
Não adianta buscar uma sombra
É sol sem guarda-chuva.

§

Não fiz geografia na UFRG
Nem sei o que significa la niña, mas quando você não está
        [colada ao meu casaco, sempre faz 9 graus abaixo de zero.

§

Charles Bronson não pedia desculpas.

§

Conto do livro A fotografia do meu antigo amor dançando tango (2012)

O cara abandona a carreira literária pra virar satanás 

- Quando raspo a cabeça fico apocalíptico. Dá até umas trovoadas.
- Olhos azuis de zumbi. Ela perdeu uns dentes. Engordou. Não curte mais jazz e vive de boca torta.
- Ainda bem que ela deu o fora senão eu ia enforcá-la. Goteira na fotografia do meu antigo amor dançando tango. O vizinho tossindo. Uma pazada nas costas espalhando girassóis.
- Ela me fudeu em Sampa. Entrou numas de que eu era veado e confundiu minhas hemorróidas com flor de pederastia e me abanou pro frio de 6 graus.
- São Paulo. São Paulo. Vou poupar 39 folhas de um possível conto só pra dizer que São Paulo é apenas um Freezer do tamanho de Saturno. Valeu?
- Daí eu lancei um livro de contos que ninguém leu.
- Se eu fosse tu parava com essa onda de literatura. Acho que foi essa porra que fudeu teu baço.
- Escrever demais dá pedra nos rins. Entramos num pub repleto de Roqueiros fedorentos e poetas de pau mole. Uma vadia cantava Legião e acabei vomitando dentro de um aquário.
- Não tô legal, Fred. – Eu disse vendo estrelas.
- Odeio quando tu confundes as bolas e cheira como anta. – disse Álvaro.
- Não é cocaína. É a vida, meu Brother.
- O que achaste do “A.S.A – Associação dos solitários anônimos”?
- Phoda. Rosário Fusco é Phoda. Grande livro.
- E o Romance?
- Mandei pra umas editoras. E depois já era. Vou parar de sangrar. Palavras bóiam por um tempo e depois afundam como navios furados.
- O cara abandona a carreira literária pra virar satanás. – Álvaro tragou fundo e depois riu salteando dentes podres.
- Literatura é uma puta muito escrota. Se você demonstra afeto demais ela acaba te fudendo.
O céu medíocre estava mais azul que o habitual. Antes de dobrarmos a Avenida Getúlio Vargas um pássaro caiu morto nos nossos pés.

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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

um pouco do cronista e escritor Julio Cesar Pereira.

O boiadeiro que foi para o sul
O céu apresentava uma coloração cinzenta do amanhecer, e, no alto do morro do Zagaia, ainda havia relampejos do dia, quando ele chegou. O rosto era metade imóvel, petrificado... a outra metade apresentava nos lábios uma leve contorção que parecia um meio sorriso. O rosto ainda sem barbas devido a pouca idade. Nos lábios o cigarro estava no fim e não fora sequer ao menos uma vez tocado com as mãos. O semblante tinha aspecto bronze, que contrastava com o chapéu opaco. O terno estava em uma das mãos. Havia uma ingenuidade combinada com franqueza que era cortante. A camisa e a calça em suave harmonia. Tinha as barras das calças salpicados de barro. O sapato estava enlameado. Andara. Parou diante do poste e observou. O Zagaia parecia um enorme animal que emitia entre sussurros e choro de criança, um ruído peculiar. Um silvo de três toques. Coruja? Caga-sebo?
Não...era a boiada, saindo da porteira do cercadinho subindo para a baixada. E foi neste dia que ele voltou. Matusalém, o menino Tutim. Havia ido levar a boiada para o estado de São Paulo e realizar o sonho de montar em boi bravo em Barretos. O boiadeiro que foi para o sul. Mas as fortes presenças da espiritualidade dos ternos de Moçambique o buscaram. Era comum em sua família. Voltara para, juntamente com o “Vô Santana”, liderar as manifestações dos ternos de Moçambique pela cidade. Afilhado de fogueira do mestre calceteiro, Temistocles Rufino. Juntamente com o amigo “Mandino” liderou gerações de Moçambiqueiro na coroação da rainha “Xinga”, era proibido... Mas faziam assim mesmo... Escondido. Mas o boiadeiro voltara do sul por motivos mais nobres. Juntamente com os mesmos amigos dos ternos eles fundaram também um clube. Viera para comprar as bases sólidas de uma edificação que estava nas suas idealizações e muito pouco em suas mãos. Mas eles, vitoriosos, compraram o terreno que hoje leva o nome de XIII de Maio Futebol Clube.
O boiadeiro voltara do sul, de Barretos, largara as boiadas. Os protuberantes ossos da face e a voz grossa e firme estavam de volta. Foi assim que Matuzalém Ferreira voltou das comitivas, do sonho de ser montador em rodeios.
A tarde caía, caindo, o céu estava azul cinzento e o lusco-fusco parecia anunciar que o dia acabara. E lá estava o rapaz, de novo olhando para as entranhas do Zagaia. O monstro com seus pares de olhos, enegrecidos pela fumaça da cerâmica Batista, o cheiro de almeirão bravo do Borá invadindo suas narinas e sufocando; o boiadeiro que foi para o sul resolveu voltar...
(*)Julio César Pereira é Sociólogo, escritor entre outros de “Sobre Melros pássaros-pretos e borboletas”.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Para conhecer o Uberabense Cacaso...um ícone da poesia marginal

Há exatos 20 anos morria Cacaso, ícone da chamada poesia marginal brasileira da década de 1970. Em Textos Escolhidos, poemas, letras de música, ensaios, vida e obra. ( Leia completo)

Cacaso, um marginal transgressor
Gilfrancisco Santos
O poeta Charles, em artigo publicado no Jornal do Brasil, em 1986, disse que a "literatura marginal" escrita nos anos 70 está balizada por duas mortes: a de Torquato Neto ("e vivo tranqüilamente todas as horas do fim"), que marca o melancólico início, e a de Ana Cristina César ("Estou muito concentrada no meu pânico"), que chama a atenção para o gran finale de sua geração.
Nos anos de chumbo, período da ditadura militar instaurada a partir de 1964, surgiu uma geração de poetas que ficou conhecida pelo nome de "geração mimeógrafo" ou "geração marginal." Geração mimeógrafo pela característica de produzir suas obras: edições independentes, de baixo custo, comercializado em circuitos alternativos, gerada de mão em mãos – particularmente em bares e universidades. Nesse contexto de ditadura e desbunde é que surgiu o poeta Cacaso.
Antonio Carlos de Brito, ou Cacaso, nasceu em 13 de março de 1944, Uberaba (MG), professor universitário, letrista e poeta. Depois de viver no interior de São Paulo, mudou-se aos onze anos para o Rio de Janeiro, onde estudou Filosofia e, na década de 1970, lecionou Teoria da Literatura e Literatura Brasileira na PUC-RJ. Foi colaborador regular de revistas e jornais, como Opinião e Movimento, tendo, entre outros assuntos, defendido e teorizado acerca do cenário poético de seus contemporâneos, a geração mimeógrafo, criadores da dita poesia marginal, que ganhou publicidade com a antologia 26 Poetas Hoje, organizada por Heloisa Buarque de Holanda.
Como poeta estreou em 1967 com A Palavra Cerzida, livro ainda tímido mas dentro dos padrões literários do momento, que foi recebido com entusiasmo pelo crítico José Guilherme Merquior. Em 1974, lança Grupo Escolar (mostrando um poeta em busca de novos caminhos, identificado com o grupo) pela Coleção Frenesi, composta também dos livros Passatempo, de Francisco Alvim, Corações Veteranos, de Roberto Schwarz, Em busca do sete-estalo, de Geraldo Carneiro e Motor, de João Carlos Pádua. Cacaso une-se então a outros poetas, como Eudoro Augusto, Carlos Saldanha e Chacal, formando a coleção Vida de Artista, pela qual lançou Segunda Classe, 1975 (em parceria com Luiz Olavo Fontes) e Beijo na boca (1975), aos quais se seguiram Na Corda bamba (1978), Mar de mineiro (1982) e Beijo na boca e outros poemas que reunia toda obra até 1985.
Lero-lero, publicado em 2002 pelas editoras Cosac & Naify (SP) e 7 Letras (RJ) que se associaram para lançar o livro, primeiro título da coleção Ás de Colete. A edição de suas obras completas veio propiciar a recuperação do trabalho de um bom poeta que estava sendo injustamente esquecido. Lero-lero apresenta sua produção de trás para frente, à moda de João Cabral de Melo Neto em Museu de tudo, quer dizer, inicia com seu último livro Mar Mineiro e vai voltando no tempo até Palavra Cerzida, seu primeiro livro, para fechar com alguns poemas inéditos e dispersos. Traz ainda uma bibliografia subdividida em poesia, crítica, resenhas, artigos, ensaios, entrevistas e um brinde simpático: um exemplar, aos moldes da produção de época, do livrinho Na Corda Bamba, lançado originalmente no Rio de Janeiro em 1978.
Não quero Prosa, publicado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro/Ed. Unicamp, 1997, reorganizado e apresentado pela professora e escritora Vilma Arêas, que optou por substituir a cronologia pelo assunto, reúne boa parte de sua produção ensaística, selecionada e batizada pelo próprio autor, pouco antes de sua morte em 1987. Dividido em sete partes: Entrevistas; Bate-Papo sobre Poesia Marginal; Você sabe com quem está falando?; Literatura e Vida Literária; Pelo que me falaram; Lição dos Mestres; O Poeta dos outros.
O livro de ensaios demonstra agudo senso de análise ao se debruçar sobre a poesia brasileira, inclusive a sua contemporânea, inserindo-se, com isso, na linhagem moderna dos poetas-críticos. Cacaso revela através desses ensaios, como por exemplo: o engajamento político-literário que jurava fidelidade ao engajamento existencial.
Marginais ou Magistrais?
Cacaso era um poeta integral e um grande articulista da poesia marginal. Escrevia com humor e graça, seus ensaios nos surpreendiam. Fiel escudeiro em todas as situações: como poeta, como professor, como letrista, como amigo. O encontrei com os músicos Gereba e Fábio Paes, perdido nos sertões baianos, nos confins de Canudos, terra do beato Antônio Conselheiro, palco da guerra nos fins do século XIX. Foi justamente em outubro de 1987 durante a realização da Quarta Missa de Canudos – resistência do povo, noventa anos depois.
O escritor Roberto Schwarz, como bom caricaturista, pinçou bem os traços do nosso jovem poeta: "A estampa de Cacaso era rigorosamente 68: cabeludo, óculos John Lennon, sandálias, paletó vestido em cima de camisa de meia, sacola de couro. Nunca dele, entretanto, esses apetrechos de rebeldia vinham impregnados de outra conotação mais remota. Sendo um cavalheiro de masculinidade ostensiva, usava a sandália com meia soquete branca, exatamente como era obrigado no jardim-de-infância. A sua bolsa à tiracolo fazia pensar numa lancheira, o cabelo comprido lembrava a idade dos cachinhos, os óculos de vovó pareciam dele e o paletó, que emprestava um decoro meio duvidoso ao conjunto, também".
Já falecido há 20 anos, Cacaso não desapareceu do nosso panorama poético. Sua presença na década de 1970/1980 continua sendo uma forte referência para os poetas da geração 1980/1990. Cacaso tornou-se um dos ícones da poesia marginal, muito embora o rótulo não seja mais preciso para demarcar todas as camadas que se tornou o solo em que sua poesia floresceu. Antecipou o boom dos versos dos anos 90 (poetas-professores), que contribuiu para sinalizar características gerais dessa geração. Através dessa tendência, Cacaso soluciona no desenvolvimento de sua poética, equalizando as relações entre poesia e vida, cotidiano e linguagem, tradição e contemporaneidade, ao apontar para caminhos estilísticos diversos.
Sua obra possui uma outra característica comum à poesia dos anos 90, como bem demonstram as letras claras e inventivas de suas parcerias: Cacaso foi parceiro de Sueli Costa, Edu Lobo, Djavan, Francis Hime, Toquinho, Toninho Horta, Sivuca, Danilo Caymmi, Elton Medeiros, Nelson Ângelo, Joyce, Mauricio Tapajós e outros. Na verdade, os malditos sempre estiveram na corda bamba, partiram rápidos como a vida: Torquato Neto, Tite de Lemos, Ana Cristina César, Paulo Leminski, Waly Salomão. Cacaso faleceu no Rio de Janeiro em 27 de dezembro de 1987, aos 43 anos, vítima de um enfarte.
Publicado originalmente em www.revistaetcetera.com.br)
Sobre o autor : Gilfrancisco é jornalista, escritor, pesquisador e professor universitário. Publicou, dentre outros livros, " Gregório de Mattos o boca de todos os santos", e " Crônicas e poemas escolhidos de Sosígenes Costa.


Poesia marginal....Hoje em dia poesia de periferia...

Poesia Marginal

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A Poesia Marginal ou a Geração Mimeógrafo, surge na década de 70 no Brasil, de forma a representar o movimento sociocultural que atingiu as artes (música, cinema, teatro, artes plásticas) sobretudo, a literatura, e influenciou diretamente na produção cultural do país.
Sendo assim, esse movimento dito "marginal", absorveu o grito silenciado pela Ditadura Militar e, portanto, a união de artistas em geral, agitadores culturais, educadores e professores, fez com que buscassem uma forma de divulgação da arte e da cultura brasileira, reprimida pelo sistema totalitário que vigorava no país.
Para tanto, inspirado nos movimentos de contracultura, a denominação “Geração Mimeógrafo” remete justamente à sua principal característica, ou seja, a substituição dos meios tradicionais de circulação de obras para os meios alternativos de divulgação empregado pelos artistas independentes ou os “representantes da cultura marginal”, os quais sentiram a necessidade de se expressarem e, sobretudo, divulgarem suas ideias.
Dessa forma, a partir desse movimento revolucionário literário, a produção poética “fora do sistema” era divulgada pelos próprios poetas a partir de pequenas tiragens de cópias, que realizam nos toscos folhetos mimeografados, os quais vendiam sua arte a baixo custo, nos bares, praças, teatros, cinemas, universidades, dentre outros.
Numa das vertentes desse movimento sociocultural e artístico, surge notadamente a “Poesia Marginal”, aquela que abrolha do cerne da periferia, representando a voz da minoria. Nesse ínterim, os poetas marginais recusam qualquer modelo literário, de forma que não se “encaixam” em nenhuma escola ou tradição literária.
A poesia marginal é formada, em sua maioria, por pequenos textos, alguns com apelo visual (fotos, quadrinhos, etc.), absorvidos por uma linguagem coloquial (traços da oralidade), espontânea, inconsciente, a partir de temática cotidiana e erótica, permeadas de sarcasmo, humor, ironia, palavrões e gírias da periferia. Desse movimento marginal surgem poetas que se destacaram como Chacal, Cacaso, Paulo Leminki e Torquato Neto.
No campo musical, destacam-se Tom Zé, Jorge Mautner, Luiz Melodia e nas artes plásticas Lygia Clark e Hélio Oiticica se identificam com o movimento. Uma das frases mais conhecidas do artista Hélio Oiticica demostra sua proximidade com a Geração Mimeógrafo: “Seja Marginal Seja Herói”.

Principais Autores

Segue os poetas que mais se destacaram na "Geração Mimeógrafo":

Cacaso

Antônio Carlos Ferreira de Brito, conhecido como Cacaso (1944-1987), foi um dos maiores representantes da poesia marginal, sendo uma das vozes que colaborou com o grito de liberdade, o qual o país almejava diante da repressão causada pela ditadura.
Podemos notar essa temática expressa em muitos de seus versos, por exemplo no Poema “Lar doce lar”: “Minha pátria é minha infância: por isso vivo no exílio”.
Cacaso, mineiro nascido em Uberaba, foi escritor, professor, crítico e letrista. Deixou um grande legado para a literatura brasileira, com mais de 20 cadernos, alguns em forma de diários, com poemas, fotos e ilustrações.
Algumas obras que merecem destaque: A palavra cerzida (1967), Grupo escolar (1974), Beijo na boca (1975), Segunda classe (1975), Na corda bamba (1978) e Mar de mineiro (1982).

Chacal

Nascido no Rio de janeiro em 1951, o nome “Chacal” é o pseudônimo de Ricardo de Carvalho Duarte, que junto à Cacaso destacou-se como poeta marginal na geração mimeógrafo.
Chacal é poeta e letrista brasileiro; mimeografou sua obra “Muito Prazer”, em 1971. Outras obras que merecem destaque: Preço da Passagem (1972), América (1975), Quampérius (1977), Olhos Vermelhos (1979), Boca Roxa (1979), Tontas Coisas (1982), Drops de Abril (1983), Comício de Tudo (1986), Letra Elétrika (1994), Belvedere (2007).

Leminski

Poeta Curitibano e grande representante da poesia marginal, Paulo Leminski Filho (1944-1989), durante sua vida atuou como crítico literário, escritor, tradutor e professor.
Escreveu contos, poemas, haicais, ensaios, biografias, literatura infanto-juvenil, traduções e, além disso, realizou parcerias musicais. Publicou seus primeiros poemas na revista concretista “Invenções” e colaborou com outras revistas de vanguarda.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Um pouco do mestre Edgar Allan Poe, para comemorar a terça-feira.


Leonor

(Edgar Allan Poe)

Sou oriundo duma raça caracterizada pelo vigor da fantasia e pelo ardor da paixão.

 

Os homens chamaram-me louco; mas ainda não está resolvido o problema – se a loucura é ou não a suprema inteligência – se muito do que é glorioso – se tudo o que é profundo – não tem a sua origem numa doença do pensamento – em modalidades do espírito exaltadas a custa das faculdades gerais. Aqueles que sonham de dia sabem muitas coisas que escapam àqueles que somente de noite sonham. Nas suas vagas visões obtêm relances de eternidade e, quando despertam, estremecem ao verem que estiveram mesmo à beira do grande segredo. Penetram sem leme nem bússola, no vasto oceano da "luz inefável"; e de novo, como os aventureiros do geógrafo núbio, agressi sunt mare tenebrarum, quid in eo esset exploraturi.
Diremos, então, que estou doido. Concordo, pelo menos, em que há dois estados distintos da minha existência mental – o de uma razão lúcida que não pode ser contestada, e pertence à memória de acontecimentos que constituem a primeira época da minha vida – e um estado de sombra e dúvida, que abrange o presente e a recordação do que constitui a segunda grande era do meu ser. Por conseqüência, acreditai tudo o que eu disser do primeiro período de minha existência; e dai ao que eu vier a contar dos derradeiros tempos o crédito que se vos afigurar justo; ou ponde-o completamente em dúvida; ou, se não puderes duvidar, fazei como Édipo e procurai decifrar o seu enigma.
Aquela que na minha mocidade amei, e de quem agora, serena e lucidamente, estou traçando estas recordações, era a filha única da única irmã de minha mãe havia muito falecida.
Minha prima chamava-se Leonor. Havíamos sempre vivido juntos, sob um sol tropical, no vale de Many-Coloured Crass. Jamais viandante algum aventurou seus passos por aquele vale; pois se estendia por entre uma cadeia de montes gigantescos, que sobre ele debruçavam as suas escarpas, vedando o acesso dos raios solares aos seus mais aprazíveis recônditos. Nas suas proximidades atalho algum jamais fora trilhado, e, para chegarmos ao nosso lar, não precisávamos afastar, com força, a folhagem de milhares de árvores, nem esmagar milhões de fragrantes flores. Assim vivíamos nós sozinhos, nada sabendo do mundo para além do vale – eu, minha prima e sua mãe.
Das obscuras regiões de além dos montes, no extremo superior de nossos domínios, descia um estreito e profundo rio, que excedia em brilho e limpidez tudo menos os claros olhos de Leonor; e, serpenteando furtivamente em intrincados meandros, embrenhava-se por fim através de uma sombria garganta, por entre montes ainda mais negros do que aqueles de que brotara. Denominávamo-lo o "Rio do Silêncio", pois as suas águas pareciam ter a faculdade de tudo emudecer. Do seu leito nenhum murmúrio se erguia, e tão de mansinho ia desfiando seu curso que os diáfanos seixinhos que esmaltavam o fundo e que nós tanto gostávamos de contemplar, permaneciam absolutamente imóveis, refulgindo eternamente no lugar onde um dia se quedaram.
A margem do rio e de muitos cintilantes riachos que, por tortuosos rodeios, a ele afluíam, bem como os espaços que as margens desciam até o leito de seixos do fundo das águas – todos estes lugares, não menos de que toda a superfície do vale, desde o rio até as montanhas que o circundavam, eram tapetados por uma relva verde, macia, espessa, curta, perfeitamente lisa e perfumada, mas tão profusamente matizada com botões de ouro, margaridas, violetas e asfódelos que a sua extraordinária beleza dilatava nossos corações com eloqüência e paixão, do amor e da glória de Deus.
E, aqui e além, em maciços que se diriam antes matas de sonhos, brotavam fantásticas árvores, cujos altos e esguios troncos se não erguiam a prumo, mas, torcendo-se, inclinavam-se para a luz que ao meio-dia irrompia pelo centro do vale. A sua casca apresentava ao mesmo tempo o esplendor do marfim e da prata, e seria mais suave do que tudo não fosse a suave face de Leonor; de sorte que, se não fora o verde brilhante das enormes folhas que das suas copas se alastravam em linhas compridas e trêmulas, embaladas pelos zéfiros, poderia alguém imaginá-las gigantescas serpentes da Síria, prestando homenagem ao seu soberano, o Sol.
De mãos dadas, durante 15 anos, vaguei com Leonor por este vale, antes de o Amor penetrar em nossos corações. Era uma tarde, ao cerrar-se o terceiro lustro da sua vida e o quarto da minha: estávamos sentados, abraçados, debaixo das árvores-serpentes e contemplávamos as nossas imagens refletidas no espelho das águas do rio. Nem mais uma palavra pronunciamos durante o resto daquele doce dia, e na manhã seguinte ainda as nossas palavras eram trêmulas e raras. Do fundo das águas havíamos tirado o deus Eros, e agora sentíamos que havíamos ateado dentro de nós as almas ardorosas dos nossos maiores. As paixões que durante séculos haviam caracterizado a nossa raça acudiam agora de tropel com as fantasias que os haviam igualmente distinguido e bafejavam venturas e bênçãos sobre o vale de Many-Coloured Crass. Tudo como por encanto mudou. Sobre as árvores onde jamais se conhecera uma flor desabrocharam agora estranhas flores em forma de estrela. Tornaram-se mais carregados os tons das alfombras de verdura; e quando uma a uma murcharam as brancas margaridas, surgiram em seus lugares, dez a dez, os asfóidelos da cor dos rubis. E a vida brotava em nossos atalhos; pois o alto flamingo, até aqui nunca visto, com todas as álacres e variegadas aves, ostentava ante nós a sua plumagem escarlate. Peixes de ouro e de prata acorriam agora ao rio, de cujo seio se erguia, de mansinho, um murmúrio que, por fim, foi engrossando até se transformar numa suave melodia mais divina de que a da harpa de Éolo, mais doce do que tudo, não fosse a voz de Leonor. E agora, também uma enorme nuvem, que por muito tempo dominara as regiões do Hesper, avançara num deslumbramento carmesim e ouro e viera pairar serenamente sobre nós, descendo dia a dia até pousar sobre os cumes dos montes, transfigurando-os com o seu glorioso esplendor e encerrando-nos, como que para sempre, dentro duma mágica prisão de magnificência e glória.
O encanto de Leonor era o de um Serafim, mas ela era uma adolescente ingênua e simples como a curta vida que vivera entre as flores. Nenhum artifício mascarava o amor que lhe estuava no coração, e ela examinava comigo os seus mais íntimos recessos, quando passeávamos no vale de Many-Coloured e conversávamos sobre as notáveis transformações que nele ultimamente se haviam operado.
Um dia, finalmente, tendo falado, banhada em pranto da triste e derradeira transformação que a Humanidade deve sofrer, nunca mais deixou de discutir este doloroso assunto, intercalando-o em todas as nossas conversas, como nos cantos do bardo de Schiraz estão constantemente ocorrendo as mesmas imagens, a cada passo repetidas em cada impressionante variação de frase.
Ela tinha visto que o dedo da morte se lhe cravara no seio – que, como o efêmero, ela fora feita perfeita em encanto e beleza somente para morrer; mas para ela os terrores do túmulo apenas consistiam numa apreensão, que uma tarde, ao crepúsculo, ela me revelou, passeando comigo pelas margens do Rio do Silêncio. O que a penalizava era pensar que, após havê-la sepultado no vale de Many-Coloured, eu abandonaria para sempre aquelas ditosas paragens, transferindo o amor, que só dela tão apaixonadamente agora era, para alguma jovem do mundo exterior e banal. E, então, ao ouvir-lhe expressar este pesar, atirei-me aos pés de Leonor e jurei que nunca me ligaria pelo casamento a filha alguma da Terra – que jamais eu, fosse de que maneira fosse, trairia a sua querida recordação. Invoquei o Onipotente Senhor como testemunha da pia solenidade do meu juramento. E a maldição de que Deus e dela impetrei, no caso de eu atraiçoar meu juramento, envolvia uma pena cujo extraordinário horror me não permite referi-la aqui.
Os olhos de Leonor se tornaram mais claros, quando eu assim exprimi o carinho que a prendia à minha vida; como se do peito arrancassem um peso mortal; tremeu e chorou amargamente; mas (que era ela senão uma criança?) aceitou o juramento, que lhe tornava mais suave o leito de morte. E disse-me, não muitos dias depois, finando-se tranqüilamente, que, em vista do que eu fizera para alívio e consolo do seu espírito, velaria sempre por mim depois de morta, e se tal lhe fosse permitido, voltaria visivelmente a visitar-me nas vigílias da noite; se, porém, isto ultrapassasse o que às almas no Paraíso é permitido, dar-me-ia, pelo menos, freqüentes indicações de sua presença, suspirando sobre mim nos ventos da tarde ou enchendo o ar que eu respirasse com o perfume dos turíbulos dos anjos. E, com estas palavras, exalou a sua inocente vida, ponto termo à primeira época da minha.
Até aqui é fiel o relato que fiz. Mas, quando transponho a barreira formada pela morte de minha amada e penetro na segunda era da minha existência, sinto uma sombra empolgar-me o cérebro e não confio na perfeita sanidade das minhas palavras. Mas, prossigamos.
Os anos foram-se arrastando pesadamente e eu continuei habitando no vale – mas uma segunda transformação se operara em todas as coisas. As flores em forma de estrela secaram nas árvores e não mais reapareceram. Apagaram-se os matizes do verde tapete de relva; e, um a um, murcharam os rubros asfódelos e, em seu lugar, surgiram, dez a dez, escuras violetas sempre carregadas de orvalho.
A vida desapareceu dos nossos atalhos; o alto flamingo já não exibia ante nós a sua plumagem escarlate, mas tristemente fugiu do vale para os montes com todas as álacres aves multicores que em sua companhia tinham vindo. Os peixes de ouro e prata nunca mais esmaltaram o nosso doce rio. A suave melodia que encantara mais do que a harpa e Éolo e fora mais divina do que tudo menos a voz de Leonor, foi-se pouco a pouco extinguindo, sumindo-se em murmúrios cada vez mais débeis, até que, por fim, o rio voltou à solenidade do seu primitivo silêncio. E então ergueu-se de novo a enorme nuvem e, abandonando os píncaros dos montes à sua antiga tristeza, recuou para as regiões de Hesper, e consigo levou o áureo esplendor e todas as magnificências que por alguns anos transfiguraram o vale de Many-Coloured Crass.
Todavia, as promessas de Leonor não ficaram no olvido; pois eu ouvia os sons do balouçar dos turíbulos dos anjos; correntes dum sagrado perfume flutuavam permanentemente sobre o vale; nas horas ermas, quando meu coração palpitava pesadamente, os ventos que me refrescavam a fronte vinham carregados de brandos suspiros; indistintos murmúrios – oh, mas só uma vez! fui desperto de um sono, que se me afigurava o sono da morte, pela pressão de uns lábios espirituais sobre os meus.
Mas o vácuo dentro do meu coração recusava-se, ainda assim, a ser preenchido. Tinha saudades do amor que o enchera a transbordar. Por fim o vale fazia-me sofrer pelas recordações, e abandonei-o então para sempre, trocando-o pelas vaidades e pelos turbulentos triunfos do mundo.
Encontrei-me dentro duma estranha cidade, onde todas as coisas podiam ter servido para me apagaram da lembrança os doces sonhos que por tanto tempo sonhara no vale. O luxo e a pompa de uma corte majestosa, o doido clangor das armas e a radiosa beleza das mulheres desvairaram-me e embriagaram-me o cérebro. Até aqui, porém, ainda a minha alma permanecera fiel aos seus juramentos, e nas horas silentes da noite ainda até mim chegavam as revelações da presença de Leonor.
De súbito, cessaram estas manifestações; mundo escureceu de todo ante os meus olhos, e quedei-me espavorido ante o escaldante pensamento que me possuía – ante as terríveis tentações que me empolgavam; pois de muito longe, de uma terra distante e ignota, viera para a alegre corte do rei que eu servia, uma donzela a cuja beleza todo o meu perjuro coração imediatamente se rendeu – a cujos pés me curvei sem uma luta, no mais ardente, no mais abjeto culto de amor.
Que era, na verdade, a minha paixão pela adolescente do vale comparada com o fervor e o delírio, o alucinado êxtase de adoração com que eu depunha toda a minha alma em pranto aos pés da etérea Hermengarda? – Oh, que deslumbrante era a Angélica Hermengarda! E na minha alma para ninguém mais havia lugar. – Oh, que divina era a celestial Hermengarda! E quando eu sondava as profundezas dos olhos inolvidáveis, só neles pensava – só neles e nela!
Casei; não me arreceei da maldição que invocara; nem senti o amargor de haver infringido um juramento solene.
Mas uma vez, no silêncio da noite, chegaram até mim, através das minhas persianas, os brandos suspiros que havia muito eu já não ouvia e, numa voz familiar e doce, percebi estas palavras que jamais esquecerei:
- Dorme em paz! – pois o Espírito do Amor reina e governa e, acolhendo no teu apaixonado coração aquela que se chama Hermengarda, tu és absolvido, por motivos que só no céu serão explicados, dos juramentos que fizeste a Leonor!


 

Grafitagem - Oda Krew.

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