Cocaína, Walt Whitman e mais uns versos
Cocaína, Walt Whitman e mais uns versos
Resenha escrita por Rodrigo Sarubbi
“Um bar fecha dentro da gente” é um livrinho tão curto que dizer que dá para ler em uma sentada é sacanagem com os outros livros que se leem em uma sentada. Publicado pela portuguesa Douda Corrêa e escolhido pelo jornal Expresso de Portugal como um dos 10 lançamentos literários de 2015, por indicação do respeitado poeta português Manuel de Freitas, o livro do manauara Diego Moraes pode ser lido entre um pum e outro, a depender do nível de peidorrice do leitor. Mas não é isso o que importa, mesmo. Há livros de mais de 500 páginas que não dizem nada com nada (palavras do poeta, e eu sou obrigado a concordar), ao menos nada que preste. O de Diego tem 32. Nem lombada tem. A capa é branca com uns rabiscos pretos, no melhor estilo fanzine. Mas, porra, é de tirar o chapéu.
Não é difícil desgostar do amazonense. Marrento, ele xinga mesmo. Se você for mimimi não dura dois tempos. Eu mesmo me enquadro em pelo menos meia dúzia de estereótipos em que ele curte mijar, mas o fato é que a espontaneidade e a meia dúzia de sacadas que ele tem por dia atropelam qualquer tipo de orgulho. É leitura que vicia. Por mais que alguns contos de facebook sejam até ruinzinhos, muitos são uma bomba. Como esse livro que tenho em mãos, uma bomba inteira. Seus inimigos dirão que ele repete fórmulas batidas, que só faz falar em cocaína e Walt Whitman e poesia, e que fala muito nessas coisas para disfarçar a falta de conteúdo real. Seus fãs dirão que essa repetição é o que dá uma identidade conceitual ao trabalho e que o poeta é coerente com suas referências. Nada disso importa. Se você lê “Quando/ Um amigo morre/ Parece que um bar/ Fecha dentro da gente.”, ou “Escrever para si mesmo ainda é poesia. Quem escreve para si mesmo tem os braços grandes e pode se abraçar com força.” e ainda assim achá-lo pobre, ele não tem nada pra falar contigo, melhor vazar. E olha, talvez eu também não tenha, porque conteúdo ali é o que não falta, basta colocar o preconceito de lado e ler o tal do livro, mas ler de coração aberto.
Na minha pobre opinião, o grande mérito desse trabalho é o olhar. O olhar faz do resto penduricalhos. Você pode ter um ritmo do cacete, conhecer palavras escabrosas, saber até usar a tal da métrica, mas se quando você vê o mundo você não enxerga música, lamento, mas um belo poeta de bosta é o que você deve ser. Poesia é tirar o leitor do chão. É transportá-lo para outra maneira de viver e sentir e perceber o mundo que através de um abraço ou um beijo ou uma trepada talvez não dê (embora para um monte de coisas coisas eles sejam foda demais). Lendo o livro do Diego eu noto sua intensidade. As imagens que ele cria, putz! “Tirar alguém do porta-retrato é como fazer uma cirurgia de apendicite.” Apêndice é um troço inútil que quando resolve existir na vida da gente é só para doer pra cacete. Algumas ex também. Inclusive algumas atuais, afinal “O peito do poeta/ É uma cidade cheia/ De amores suspeitos”.
Não ser autêntico é o único pecado que um poeta não pode cometer. Diego tá safo, então.
Autor: Diego Moraes
Título: Um bar fecha dentro da gente
Editora: Douda Correria
Ano da edição: 2015
32 páginas
Avaliação: ★★★★ (imperdível)
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