sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Cocaína, Walt Whitman e mais uns versos...Acabei de ler...Indico a todos...

Cocaína, Walt Whitman e mais uns versos



Cocaína, Walt Whitman e mais uns versos
Resenha escrita por Rodrigo Sarubbi
“Um bar fecha dentro da gente” é um livrinho tão curto que dizer que dá para ler em uma sentada é sacanagem com os outros livros que se leem em uma sentada. Publicado pela portuguesa Douda Corrêa e escolhido pelo jornal Expresso de Portugal como um dos 10 lançamentos literários de 2015, por indicação do respeitado poeta português Manuel de Freitas, o livro do manauara Diego Moraes pode ser lido entre um pum e outro, a depender do nível de peidorrice do leitor. Mas não é isso o que importa, mesmo. Há livros de mais de 500 páginas que não dizem nada com nada (palavras do poeta, e eu sou obrigado a concordar), ao menos nada que preste. O de Diego tem 32. Nem lombada tem. A capa é branca com uns rabiscos pretos, no melhor estilo fanzine. Mas, porra, é de tirar o chapéu.
Não é difícil desgostar do amazonense. Marrento, ele xinga mesmo. Se você for mimimi não dura dois tempos. Eu mesmo me enquadro em pelo menos meia dúzia de estereótipos em que ele curte mijar, mas o fato é que a espontaneidade e a meia dúzia de sacadas que ele tem por dia atropelam qualquer tipo de orgulho. É leitura que vicia. Por mais que alguns contos de facebook sejam até ruinzinhos, muitos são uma bomba. Como esse livro que tenho em mãos, uma bomba inteira. Seus inimigos dirão que ele repete fórmulas batidas, que só faz falar em cocaína e Walt Whitman e poesia, e que fala muito nessas coisas para disfarçar a falta de conteúdo real. Seus fãs dirão que essa repetição é o que dá uma identidade conceitual ao trabalho e que o poeta é coerente com suas referências. Nada disso importa. Se você lê “Quando/ Um amigo morre/ Parece que um bar/ Fecha dentro da gente.”, ou “Escrever para si mesmo ainda é poesia. Quem escreve para si mesmo tem os braços grandes e pode se abraçar com força.” e ainda assim achá-lo pobre, ele não tem nada pra falar contigo, melhor vazar. E olha, talvez eu também não tenha, porque conteúdo ali é o que não falta, basta colocar o preconceito de lado e ler o tal do livro, mas ler de coração aberto.
Na minha pobre opinião, o grande mérito desse trabalho é o olhar. O olhar faz do resto penduricalhos. Você pode ter um ritmo do cacete, conhecer palavras escabrosas, saber até usar a tal da métrica, mas se quando você vê o mundo você não enxerga música, lamento, mas um belo poeta de bosta é o que você deve ser. Poesia é tirar o leitor do chão. É transportá-lo para outra maneira de viver e sentir e perceber o mundo que através de um abraço ou um beijo ou uma trepada talvez não dê (embora para um monte de coisas coisas eles sejam foda demais). Lendo o livro do Diego eu noto sua intensidade. As imagens que ele cria, putz! “Tirar alguém do porta-retrato é como fazer uma cirurgia de apendicite.” Apêndice é um troço inútil que quando resolve existir na vida da gente é só para doer pra cacete. Algumas ex também. Inclusive algumas atuais, afinal “O peito do poeta/ É uma cidade cheia/ De amores suspeitos”.
Não ser autêntico é o único pecado que um poeta não pode cometer. Diego tá safo, então.
Autor: Diego Moraes
Título: Um bar fecha dentro da gente
Editora: Douda Correria
Ano da edição: 2015
32 páginas
Avaliação: ★★★★ (imperdível)

A poesia marginal de Diego Morae...nos mostra que a poesia marginal ainda nos eleva a quinta potência. Só alguem que viveu nas ruas de São Paulo pode nos dar essa sensação...

Diego Moraes


Diego Moraes é um escritor brasileiro, nascido em Manaus, Amazonas, a 23 de agosto de 1982. É autor do livro de contos A fotografia do meu antigo amor dançando tango (2012) e da coletânea de poemas A solidão é um deus bêbado dando ré num trator (2013), ambos lançados pela Editora Bartlebee.

Os dois primeiros poemas abaixo são inéditos, seguidos de alguns textos selecionados de seu último livro. Encerro a postagem com um conto de A fotografia do meu antigo amor dançando tango (2012). Diego Moraes vive e trabalha em Manaus.

--- Ricardo Domeneck

§

POEMAS DE DIEGO MORAES

Inéditos


Repare bem
O amor é paranormal
Quando ela cuspiu na sua cara e disse que tudo havia acabado
Os talheres entortaram e a prataria do seu avô enferrujou
Agora vai lá na cozinha e chora escutando Dolores Duran
        [no radinho de pilha.

§

Mergulhar
Nesta
Pororoquinha
Que
Você
Teima
Chamar
De
Antologia
De
Suas
Melhores
Recaídas.
Secar
Tuas
Camisetas
De
Bandinhas
Death Metal
No
Ventilador Arno
 “Bota no volume máximo!”
Você
Grita
Enquanto
Walt Whitman
Descansa
De
Bruços
Num
Gramado
Dentro
Dos
Sonhos
De
Roberto Piva.

§

De  A solidão é um deus bêbado dando ré num trator (2013)



Você disse que sonhos é como fazer musculação
Você disse que Vou à Bahia leva crase
Você disse que queria adotar um cachorrinho e fazer Teatro
         [de Rua em São Paulo
Você disse que Roberto Piva era o poeta mais lindo do mundo
Você disse tantas coisas bacanas quando eu tava fudido
Você disse que eu sairia dessa e levou livros e cigarros quando
         [eu tava internado naquela clinica para drogados
Você foi minha garota e foi foda ver seu sorriso de mãos dadas
         [com outro cara
Sempre fico sem jeito com o meu passado
Nessas horas eu queria ser invisível ou ter asas.

§

Bússolas quebradas
Cartas anônimas nunca me disseram nada
Isso não é literatura. É só minha dívida no Bradesco.

§

Você não deveria estar aqui
Seu namorado tá lá fora fumando Lucky Strike e ouvindo
      [uma canção do Jeff Buckley no rádio de um cadilac
      [que nunca foi dele
Você não deveria estar aqui
O que tínhamos pra conversar virou aquele roxo que a
      [madrugada perdoa
O que tínhamos pra conversar virou aquelas bolinhas de
      [luz que vão ficando para trás quando o taxista passa
      [a quarta marcha e olha pelo retrovisor
Você não deveria estar aqui
Daqui nove meses uma criança nasce com meu nome
Daqui nove anos vai lembrar que eu poderia ter sido
      [o melhor para sua vida
Daqui vinte anos vai lembrar que seu garoto parece comigo
      [e seria lindo sair num final de semana para pescar ou
      [visitar os amigos
Você não deveria estar aqui
Fecha a porta e me esquece
Deixa-me adubar o tédio.

§

O amor anda de ônibus.

§

Talvez eu seja o único cara andando a pé do centro a nova
      [cidade
Recolhendo restos de coisas do século passado e transformando
      [em livros
Chorando, ouvindo aquela canção do Neil Young da boca de
      [um mendigo.

§

Rejuvenescer
Tornar-se loirinho fazendo caretas na fazenda
Tacando pedras
Correndo atrás dos bichos com apelidos dados na inocência da
       [infância
Amadurecer lentamente como fruta fora da fruteira
Iludir-se
Inventar amores distantes só pra dedicar ternuras pela internet
Poesia: enfeite para o fundo do mar.

§

Ela havia me falado do tio que escrevia poemas e morreu
     [atropelado em Mairiporã
Da linha invisível que protege a cidade de incêndios
De como era bom tingir os cabelos e sentir a brisa poderosa
     [de domingo
Quando o amor aparece
Não adianta buscar uma sombra
É sol sem guarda-chuva.

§

Não fiz geografia na UFRG
Nem sei o que significa la niña, mas quando você não está
        [colada ao meu casaco, sempre faz 9 graus abaixo de zero.

§

Charles Bronson não pedia desculpas.

§

Conto do livro A fotografia do meu antigo amor dançando tango (2012)

O cara abandona a carreira literária pra virar satanás 

- Quando raspo a cabeça fico apocalíptico. Dá até umas trovoadas.
- Olhos azuis de zumbi. Ela perdeu uns dentes. Engordou. Não curte mais jazz e vive de boca torta.
- Ainda bem que ela deu o fora senão eu ia enforcá-la. Goteira na fotografia do meu antigo amor dançando tango. O vizinho tossindo. Uma pazada nas costas espalhando girassóis.
- Ela me fudeu em Sampa. Entrou numas de que eu era veado e confundiu minhas hemorróidas com flor de pederastia e me abanou pro frio de 6 graus.
- São Paulo. São Paulo. Vou poupar 39 folhas de um possível conto só pra dizer que São Paulo é apenas um Freezer do tamanho de Saturno. Valeu?
- Daí eu lancei um livro de contos que ninguém leu.
- Se eu fosse tu parava com essa onda de literatura. Acho que foi essa porra que fudeu teu baço.
- Escrever demais dá pedra nos rins. Entramos num pub repleto de Roqueiros fedorentos e poetas de pau mole. Uma vadia cantava Legião e acabei vomitando dentro de um aquário.
- Não tô legal, Fred. – Eu disse vendo estrelas.
- Odeio quando tu confundes as bolas e cheira como anta. – disse Álvaro.
- Não é cocaína. É a vida, meu Brother.
- O que achaste do “A.S.A – Associação dos solitários anônimos”?
- Phoda. Rosário Fusco é Phoda. Grande livro.
- E o Romance?
- Mandei pra umas editoras. E depois já era. Vou parar de sangrar. Palavras bóiam por um tempo e depois afundam como navios furados.
- O cara abandona a carreira literária pra virar satanás. – Álvaro tragou fundo e depois riu salteando dentes podres.
- Literatura é uma puta muito escrota. Se você demonstra afeto demais ela acaba te fudendo.
O céu medíocre estava mais azul que o habitual. Antes de dobrarmos a Avenida Getúlio Vargas um pássaro caiu morto nos nossos pés.

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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

um pouco do cronista e escritor Julio Cesar Pereira.

O boiadeiro que foi para o sul
O céu apresentava uma coloração cinzenta do amanhecer, e, no alto do morro do Zagaia, ainda havia relampejos do dia, quando ele chegou. O rosto era metade imóvel, petrificado... a outra metade apresentava nos lábios uma leve contorção que parecia um meio sorriso. O rosto ainda sem barbas devido a pouca idade. Nos lábios o cigarro estava no fim e não fora sequer ao menos uma vez tocado com as mãos. O semblante tinha aspecto bronze, que contrastava com o chapéu opaco. O terno estava em uma das mãos. Havia uma ingenuidade combinada com franqueza que era cortante. A camisa e a calça em suave harmonia. Tinha as barras das calças salpicados de barro. O sapato estava enlameado. Andara. Parou diante do poste e observou. O Zagaia parecia um enorme animal que emitia entre sussurros e choro de criança, um ruído peculiar. Um silvo de três toques. Coruja? Caga-sebo?
Não...era a boiada, saindo da porteira do cercadinho subindo para a baixada. E foi neste dia que ele voltou. Matusalém, o menino Tutim. Havia ido levar a boiada para o estado de São Paulo e realizar o sonho de montar em boi bravo em Barretos. O boiadeiro que foi para o sul. Mas as fortes presenças da espiritualidade dos ternos de Moçambique o buscaram. Era comum em sua família. Voltara para, juntamente com o “Vô Santana”, liderar as manifestações dos ternos de Moçambique pela cidade. Afilhado de fogueira do mestre calceteiro, Temistocles Rufino. Juntamente com o amigo “Mandino” liderou gerações de Moçambiqueiro na coroação da rainha “Xinga”, era proibido... Mas faziam assim mesmo... Escondido. Mas o boiadeiro voltara do sul por motivos mais nobres. Juntamente com os mesmos amigos dos ternos eles fundaram também um clube. Viera para comprar as bases sólidas de uma edificação que estava nas suas idealizações e muito pouco em suas mãos. Mas eles, vitoriosos, compraram o terreno que hoje leva o nome de XIII de Maio Futebol Clube.
O boiadeiro voltara do sul, de Barretos, largara as boiadas. Os protuberantes ossos da face e a voz grossa e firme estavam de volta. Foi assim que Matuzalém Ferreira voltou das comitivas, do sonho de ser montador em rodeios.
A tarde caía, caindo, o céu estava azul cinzento e o lusco-fusco parecia anunciar que o dia acabara. E lá estava o rapaz, de novo olhando para as entranhas do Zagaia. O monstro com seus pares de olhos, enegrecidos pela fumaça da cerâmica Batista, o cheiro de almeirão bravo do Borá invadindo suas narinas e sufocando; o boiadeiro que foi para o sul resolveu voltar...
(*)Julio César Pereira é Sociólogo, escritor entre outros de “Sobre Melros pássaros-pretos e borboletas”.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Para conhecer o Uberabense Cacaso...um ícone da poesia marginal

Há exatos 20 anos morria Cacaso, ícone da chamada poesia marginal brasileira da década de 1970. Em Textos Escolhidos, poemas, letras de música, ensaios, vida e obra. ( Leia completo)

Cacaso, um marginal transgressor
Gilfrancisco Santos
O poeta Charles, em artigo publicado no Jornal do Brasil, em 1986, disse que a "literatura marginal" escrita nos anos 70 está balizada por duas mortes: a de Torquato Neto ("e vivo tranqüilamente todas as horas do fim"), que marca o melancólico início, e a de Ana Cristina César ("Estou muito concentrada no meu pânico"), que chama a atenção para o gran finale de sua geração.
Nos anos de chumbo, período da ditadura militar instaurada a partir de 1964, surgiu uma geração de poetas que ficou conhecida pelo nome de "geração mimeógrafo" ou "geração marginal." Geração mimeógrafo pela característica de produzir suas obras: edições independentes, de baixo custo, comercializado em circuitos alternativos, gerada de mão em mãos – particularmente em bares e universidades. Nesse contexto de ditadura e desbunde é que surgiu o poeta Cacaso.
Antonio Carlos de Brito, ou Cacaso, nasceu em 13 de março de 1944, Uberaba (MG), professor universitário, letrista e poeta. Depois de viver no interior de São Paulo, mudou-se aos onze anos para o Rio de Janeiro, onde estudou Filosofia e, na década de 1970, lecionou Teoria da Literatura e Literatura Brasileira na PUC-RJ. Foi colaborador regular de revistas e jornais, como Opinião e Movimento, tendo, entre outros assuntos, defendido e teorizado acerca do cenário poético de seus contemporâneos, a geração mimeógrafo, criadores da dita poesia marginal, que ganhou publicidade com a antologia 26 Poetas Hoje, organizada por Heloisa Buarque de Holanda.
Como poeta estreou em 1967 com A Palavra Cerzida, livro ainda tímido mas dentro dos padrões literários do momento, que foi recebido com entusiasmo pelo crítico José Guilherme Merquior. Em 1974, lança Grupo Escolar (mostrando um poeta em busca de novos caminhos, identificado com o grupo) pela Coleção Frenesi, composta também dos livros Passatempo, de Francisco Alvim, Corações Veteranos, de Roberto Schwarz, Em busca do sete-estalo, de Geraldo Carneiro e Motor, de João Carlos Pádua. Cacaso une-se então a outros poetas, como Eudoro Augusto, Carlos Saldanha e Chacal, formando a coleção Vida de Artista, pela qual lançou Segunda Classe, 1975 (em parceria com Luiz Olavo Fontes) e Beijo na boca (1975), aos quais se seguiram Na Corda bamba (1978), Mar de mineiro (1982) e Beijo na boca e outros poemas que reunia toda obra até 1985.
Lero-lero, publicado em 2002 pelas editoras Cosac & Naify (SP) e 7 Letras (RJ) que se associaram para lançar o livro, primeiro título da coleção Ás de Colete. A edição de suas obras completas veio propiciar a recuperação do trabalho de um bom poeta que estava sendo injustamente esquecido. Lero-lero apresenta sua produção de trás para frente, à moda de João Cabral de Melo Neto em Museu de tudo, quer dizer, inicia com seu último livro Mar Mineiro e vai voltando no tempo até Palavra Cerzida, seu primeiro livro, para fechar com alguns poemas inéditos e dispersos. Traz ainda uma bibliografia subdividida em poesia, crítica, resenhas, artigos, ensaios, entrevistas e um brinde simpático: um exemplar, aos moldes da produção de época, do livrinho Na Corda Bamba, lançado originalmente no Rio de Janeiro em 1978.
Não quero Prosa, publicado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro/Ed. Unicamp, 1997, reorganizado e apresentado pela professora e escritora Vilma Arêas, que optou por substituir a cronologia pelo assunto, reúne boa parte de sua produção ensaística, selecionada e batizada pelo próprio autor, pouco antes de sua morte em 1987. Dividido em sete partes: Entrevistas; Bate-Papo sobre Poesia Marginal; Você sabe com quem está falando?; Literatura e Vida Literária; Pelo que me falaram; Lição dos Mestres; O Poeta dos outros.
O livro de ensaios demonstra agudo senso de análise ao se debruçar sobre a poesia brasileira, inclusive a sua contemporânea, inserindo-se, com isso, na linhagem moderna dos poetas-críticos. Cacaso revela através desses ensaios, como por exemplo: o engajamento político-literário que jurava fidelidade ao engajamento existencial.
Marginais ou Magistrais?
Cacaso era um poeta integral e um grande articulista da poesia marginal. Escrevia com humor e graça, seus ensaios nos surpreendiam. Fiel escudeiro em todas as situações: como poeta, como professor, como letrista, como amigo. O encontrei com os músicos Gereba e Fábio Paes, perdido nos sertões baianos, nos confins de Canudos, terra do beato Antônio Conselheiro, palco da guerra nos fins do século XIX. Foi justamente em outubro de 1987 durante a realização da Quarta Missa de Canudos – resistência do povo, noventa anos depois.
O escritor Roberto Schwarz, como bom caricaturista, pinçou bem os traços do nosso jovem poeta: "A estampa de Cacaso era rigorosamente 68: cabeludo, óculos John Lennon, sandálias, paletó vestido em cima de camisa de meia, sacola de couro. Nunca dele, entretanto, esses apetrechos de rebeldia vinham impregnados de outra conotação mais remota. Sendo um cavalheiro de masculinidade ostensiva, usava a sandália com meia soquete branca, exatamente como era obrigado no jardim-de-infância. A sua bolsa à tiracolo fazia pensar numa lancheira, o cabelo comprido lembrava a idade dos cachinhos, os óculos de vovó pareciam dele e o paletó, que emprestava um decoro meio duvidoso ao conjunto, também".
Já falecido há 20 anos, Cacaso não desapareceu do nosso panorama poético. Sua presença na década de 1970/1980 continua sendo uma forte referência para os poetas da geração 1980/1990. Cacaso tornou-se um dos ícones da poesia marginal, muito embora o rótulo não seja mais preciso para demarcar todas as camadas que se tornou o solo em que sua poesia floresceu. Antecipou o boom dos versos dos anos 90 (poetas-professores), que contribuiu para sinalizar características gerais dessa geração. Através dessa tendência, Cacaso soluciona no desenvolvimento de sua poética, equalizando as relações entre poesia e vida, cotidiano e linguagem, tradição e contemporaneidade, ao apontar para caminhos estilísticos diversos.
Sua obra possui uma outra característica comum à poesia dos anos 90, como bem demonstram as letras claras e inventivas de suas parcerias: Cacaso foi parceiro de Sueli Costa, Edu Lobo, Djavan, Francis Hime, Toquinho, Toninho Horta, Sivuca, Danilo Caymmi, Elton Medeiros, Nelson Ângelo, Joyce, Mauricio Tapajós e outros. Na verdade, os malditos sempre estiveram na corda bamba, partiram rápidos como a vida: Torquato Neto, Tite de Lemos, Ana Cristina César, Paulo Leminski, Waly Salomão. Cacaso faleceu no Rio de Janeiro em 27 de dezembro de 1987, aos 43 anos, vítima de um enfarte.
Publicado originalmente em www.revistaetcetera.com.br)
Sobre o autor : Gilfrancisco é jornalista, escritor, pesquisador e professor universitário. Publicou, dentre outros livros, " Gregório de Mattos o boca de todos os santos", e " Crônicas e poemas escolhidos de Sosígenes Costa.


Poesia marginal....Hoje em dia poesia de periferia...

Poesia Marginal

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A Poesia Marginal ou a Geração Mimeógrafo, surge na década de 70 no Brasil, de forma a representar o movimento sociocultural que atingiu as artes (música, cinema, teatro, artes plásticas) sobretudo, a literatura, e influenciou diretamente na produção cultural do país.
Sendo assim, esse movimento dito "marginal", absorveu o grito silenciado pela Ditadura Militar e, portanto, a união de artistas em geral, agitadores culturais, educadores e professores, fez com que buscassem uma forma de divulgação da arte e da cultura brasileira, reprimida pelo sistema totalitário que vigorava no país.
Para tanto, inspirado nos movimentos de contracultura, a denominação “Geração Mimeógrafo” remete justamente à sua principal característica, ou seja, a substituição dos meios tradicionais de circulação de obras para os meios alternativos de divulgação empregado pelos artistas independentes ou os “representantes da cultura marginal”, os quais sentiram a necessidade de se expressarem e, sobretudo, divulgarem suas ideias.
Dessa forma, a partir desse movimento revolucionário literário, a produção poética “fora do sistema” era divulgada pelos próprios poetas a partir de pequenas tiragens de cópias, que realizam nos toscos folhetos mimeografados, os quais vendiam sua arte a baixo custo, nos bares, praças, teatros, cinemas, universidades, dentre outros.
Numa das vertentes desse movimento sociocultural e artístico, surge notadamente a “Poesia Marginal”, aquela que abrolha do cerne da periferia, representando a voz da minoria. Nesse ínterim, os poetas marginais recusam qualquer modelo literário, de forma que não se “encaixam” em nenhuma escola ou tradição literária.
A poesia marginal é formada, em sua maioria, por pequenos textos, alguns com apelo visual (fotos, quadrinhos, etc.), absorvidos por uma linguagem coloquial (traços da oralidade), espontânea, inconsciente, a partir de temática cotidiana e erótica, permeadas de sarcasmo, humor, ironia, palavrões e gírias da periferia. Desse movimento marginal surgem poetas que se destacaram como Chacal, Cacaso, Paulo Leminki e Torquato Neto.
No campo musical, destacam-se Tom Zé, Jorge Mautner, Luiz Melodia e nas artes plásticas Lygia Clark e Hélio Oiticica se identificam com o movimento. Uma das frases mais conhecidas do artista Hélio Oiticica demostra sua proximidade com a Geração Mimeógrafo: “Seja Marginal Seja Herói”.

Principais Autores

Segue os poetas que mais se destacaram na "Geração Mimeógrafo":

Cacaso

Antônio Carlos Ferreira de Brito, conhecido como Cacaso (1944-1987), foi um dos maiores representantes da poesia marginal, sendo uma das vozes que colaborou com o grito de liberdade, o qual o país almejava diante da repressão causada pela ditadura.
Podemos notar essa temática expressa em muitos de seus versos, por exemplo no Poema “Lar doce lar”: “Minha pátria é minha infância: por isso vivo no exílio”.
Cacaso, mineiro nascido em Uberaba, foi escritor, professor, crítico e letrista. Deixou um grande legado para a literatura brasileira, com mais de 20 cadernos, alguns em forma de diários, com poemas, fotos e ilustrações.
Algumas obras que merecem destaque: A palavra cerzida (1967), Grupo escolar (1974), Beijo na boca (1975), Segunda classe (1975), Na corda bamba (1978) e Mar de mineiro (1982).

Chacal

Nascido no Rio de janeiro em 1951, o nome “Chacal” é o pseudônimo de Ricardo de Carvalho Duarte, que junto à Cacaso destacou-se como poeta marginal na geração mimeógrafo.
Chacal é poeta e letrista brasileiro; mimeografou sua obra “Muito Prazer”, em 1971. Outras obras que merecem destaque: Preço da Passagem (1972), América (1975), Quampérius (1977), Olhos Vermelhos (1979), Boca Roxa (1979), Tontas Coisas (1982), Drops de Abril (1983), Comício de Tudo (1986), Letra Elétrika (1994), Belvedere (2007).

Leminski

Poeta Curitibano e grande representante da poesia marginal, Paulo Leminski Filho (1944-1989), durante sua vida atuou como crítico literário, escritor, tradutor e professor.
Escreveu contos, poemas, haicais, ensaios, biografias, literatura infanto-juvenil, traduções e, além disso, realizou parcerias musicais. Publicou seus primeiros poemas na revista concretista “Invenções” e colaborou com outras revistas de vanguarda.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Um pouco do mestre Edgar Allan Poe, para comemorar a terça-feira.


Leonor

(Edgar Allan Poe)

Sou oriundo duma raça caracterizada pelo vigor da fantasia e pelo ardor da paixão.

 

Os homens chamaram-me louco; mas ainda não está resolvido o problema – se a loucura é ou não a suprema inteligência – se muito do que é glorioso – se tudo o que é profundo – não tem a sua origem numa doença do pensamento – em modalidades do espírito exaltadas a custa das faculdades gerais. Aqueles que sonham de dia sabem muitas coisas que escapam àqueles que somente de noite sonham. Nas suas vagas visões obtêm relances de eternidade e, quando despertam, estremecem ao verem que estiveram mesmo à beira do grande segredo. Penetram sem leme nem bússola, no vasto oceano da "luz inefável"; e de novo, como os aventureiros do geógrafo núbio, agressi sunt mare tenebrarum, quid in eo esset exploraturi.
Diremos, então, que estou doido. Concordo, pelo menos, em que há dois estados distintos da minha existência mental – o de uma razão lúcida que não pode ser contestada, e pertence à memória de acontecimentos que constituem a primeira época da minha vida – e um estado de sombra e dúvida, que abrange o presente e a recordação do que constitui a segunda grande era do meu ser. Por conseqüência, acreditai tudo o que eu disser do primeiro período de minha existência; e dai ao que eu vier a contar dos derradeiros tempos o crédito que se vos afigurar justo; ou ponde-o completamente em dúvida; ou, se não puderes duvidar, fazei como Édipo e procurai decifrar o seu enigma.
Aquela que na minha mocidade amei, e de quem agora, serena e lucidamente, estou traçando estas recordações, era a filha única da única irmã de minha mãe havia muito falecida.
Minha prima chamava-se Leonor. Havíamos sempre vivido juntos, sob um sol tropical, no vale de Many-Coloured Crass. Jamais viandante algum aventurou seus passos por aquele vale; pois se estendia por entre uma cadeia de montes gigantescos, que sobre ele debruçavam as suas escarpas, vedando o acesso dos raios solares aos seus mais aprazíveis recônditos. Nas suas proximidades atalho algum jamais fora trilhado, e, para chegarmos ao nosso lar, não precisávamos afastar, com força, a folhagem de milhares de árvores, nem esmagar milhões de fragrantes flores. Assim vivíamos nós sozinhos, nada sabendo do mundo para além do vale – eu, minha prima e sua mãe.
Das obscuras regiões de além dos montes, no extremo superior de nossos domínios, descia um estreito e profundo rio, que excedia em brilho e limpidez tudo menos os claros olhos de Leonor; e, serpenteando furtivamente em intrincados meandros, embrenhava-se por fim através de uma sombria garganta, por entre montes ainda mais negros do que aqueles de que brotara. Denominávamo-lo o "Rio do Silêncio", pois as suas águas pareciam ter a faculdade de tudo emudecer. Do seu leito nenhum murmúrio se erguia, e tão de mansinho ia desfiando seu curso que os diáfanos seixinhos que esmaltavam o fundo e que nós tanto gostávamos de contemplar, permaneciam absolutamente imóveis, refulgindo eternamente no lugar onde um dia se quedaram.
A margem do rio e de muitos cintilantes riachos que, por tortuosos rodeios, a ele afluíam, bem como os espaços que as margens desciam até o leito de seixos do fundo das águas – todos estes lugares, não menos de que toda a superfície do vale, desde o rio até as montanhas que o circundavam, eram tapetados por uma relva verde, macia, espessa, curta, perfeitamente lisa e perfumada, mas tão profusamente matizada com botões de ouro, margaridas, violetas e asfódelos que a sua extraordinária beleza dilatava nossos corações com eloqüência e paixão, do amor e da glória de Deus.
E, aqui e além, em maciços que se diriam antes matas de sonhos, brotavam fantásticas árvores, cujos altos e esguios troncos se não erguiam a prumo, mas, torcendo-se, inclinavam-se para a luz que ao meio-dia irrompia pelo centro do vale. A sua casca apresentava ao mesmo tempo o esplendor do marfim e da prata, e seria mais suave do que tudo não fosse a suave face de Leonor; de sorte que, se não fora o verde brilhante das enormes folhas que das suas copas se alastravam em linhas compridas e trêmulas, embaladas pelos zéfiros, poderia alguém imaginá-las gigantescas serpentes da Síria, prestando homenagem ao seu soberano, o Sol.
De mãos dadas, durante 15 anos, vaguei com Leonor por este vale, antes de o Amor penetrar em nossos corações. Era uma tarde, ao cerrar-se o terceiro lustro da sua vida e o quarto da minha: estávamos sentados, abraçados, debaixo das árvores-serpentes e contemplávamos as nossas imagens refletidas no espelho das águas do rio. Nem mais uma palavra pronunciamos durante o resto daquele doce dia, e na manhã seguinte ainda as nossas palavras eram trêmulas e raras. Do fundo das águas havíamos tirado o deus Eros, e agora sentíamos que havíamos ateado dentro de nós as almas ardorosas dos nossos maiores. As paixões que durante séculos haviam caracterizado a nossa raça acudiam agora de tropel com as fantasias que os haviam igualmente distinguido e bafejavam venturas e bênçãos sobre o vale de Many-Coloured Crass. Tudo como por encanto mudou. Sobre as árvores onde jamais se conhecera uma flor desabrocharam agora estranhas flores em forma de estrela. Tornaram-se mais carregados os tons das alfombras de verdura; e quando uma a uma murcharam as brancas margaridas, surgiram em seus lugares, dez a dez, os asfóidelos da cor dos rubis. E a vida brotava em nossos atalhos; pois o alto flamingo, até aqui nunca visto, com todas as álacres e variegadas aves, ostentava ante nós a sua plumagem escarlate. Peixes de ouro e de prata acorriam agora ao rio, de cujo seio se erguia, de mansinho, um murmúrio que, por fim, foi engrossando até se transformar numa suave melodia mais divina de que a da harpa de Éolo, mais doce do que tudo, não fosse a voz de Leonor. E agora, também uma enorme nuvem, que por muito tempo dominara as regiões do Hesper, avançara num deslumbramento carmesim e ouro e viera pairar serenamente sobre nós, descendo dia a dia até pousar sobre os cumes dos montes, transfigurando-os com o seu glorioso esplendor e encerrando-nos, como que para sempre, dentro duma mágica prisão de magnificência e glória.
O encanto de Leonor era o de um Serafim, mas ela era uma adolescente ingênua e simples como a curta vida que vivera entre as flores. Nenhum artifício mascarava o amor que lhe estuava no coração, e ela examinava comigo os seus mais íntimos recessos, quando passeávamos no vale de Many-Coloured e conversávamos sobre as notáveis transformações que nele ultimamente se haviam operado.
Um dia, finalmente, tendo falado, banhada em pranto da triste e derradeira transformação que a Humanidade deve sofrer, nunca mais deixou de discutir este doloroso assunto, intercalando-o em todas as nossas conversas, como nos cantos do bardo de Schiraz estão constantemente ocorrendo as mesmas imagens, a cada passo repetidas em cada impressionante variação de frase.
Ela tinha visto que o dedo da morte se lhe cravara no seio – que, como o efêmero, ela fora feita perfeita em encanto e beleza somente para morrer; mas para ela os terrores do túmulo apenas consistiam numa apreensão, que uma tarde, ao crepúsculo, ela me revelou, passeando comigo pelas margens do Rio do Silêncio. O que a penalizava era pensar que, após havê-la sepultado no vale de Many-Coloured, eu abandonaria para sempre aquelas ditosas paragens, transferindo o amor, que só dela tão apaixonadamente agora era, para alguma jovem do mundo exterior e banal. E, então, ao ouvir-lhe expressar este pesar, atirei-me aos pés de Leonor e jurei que nunca me ligaria pelo casamento a filha alguma da Terra – que jamais eu, fosse de que maneira fosse, trairia a sua querida recordação. Invoquei o Onipotente Senhor como testemunha da pia solenidade do meu juramento. E a maldição de que Deus e dela impetrei, no caso de eu atraiçoar meu juramento, envolvia uma pena cujo extraordinário horror me não permite referi-la aqui.
Os olhos de Leonor se tornaram mais claros, quando eu assim exprimi o carinho que a prendia à minha vida; como se do peito arrancassem um peso mortal; tremeu e chorou amargamente; mas (que era ela senão uma criança?) aceitou o juramento, que lhe tornava mais suave o leito de morte. E disse-me, não muitos dias depois, finando-se tranqüilamente, que, em vista do que eu fizera para alívio e consolo do seu espírito, velaria sempre por mim depois de morta, e se tal lhe fosse permitido, voltaria visivelmente a visitar-me nas vigílias da noite; se, porém, isto ultrapassasse o que às almas no Paraíso é permitido, dar-me-ia, pelo menos, freqüentes indicações de sua presença, suspirando sobre mim nos ventos da tarde ou enchendo o ar que eu respirasse com o perfume dos turíbulos dos anjos. E, com estas palavras, exalou a sua inocente vida, ponto termo à primeira época da minha.
Até aqui é fiel o relato que fiz. Mas, quando transponho a barreira formada pela morte de minha amada e penetro na segunda era da minha existência, sinto uma sombra empolgar-me o cérebro e não confio na perfeita sanidade das minhas palavras. Mas, prossigamos.
Os anos foram-se arrastando pesadamente e eu continuei habitando no vale – mas uma segunda transformação se operara em todas as coisas. As flores em forma de estrela secaram nas árvores e não mais reapareceram. Apagaram-se os matizes do verde tapete de relva; e, um a um, murcharam os rubros asfódelos e, em seu lugar, surgiram, dez a dez, escuras violetas sempre carregadas de orvalho.
A vida desapareceu dos nossos atalhos; o alto flamingo já não exibia ante nós a sua plumagem escarlate, mas tristemente fugiu do vale para os montes com todas as álacres aves multicores que em sua companhia tinham vindo. Os peixes de ouro e prata nunca mais esmaltaram o nosso doce rio. A suave melodia que encantara mais do que a harpa e Éolo e fora mais divina do que tudo menos a voz de Leonor, foi-se pouco a pouco extinguindo, sumindo-se em murmúrios cada vez mais débeis, até que, por fim, o rio voltou à solenidade do seu primitivo silêncio. E então ergueu-se de novo a enorme nuvem e, abandonando os píncaros dos montes à sua antiga tristeza, recuou para as regiões de Hesper, e consigo levou o áureo esplendor e todas as magnificências que por alguns anos transfiguraram o vale de Many-Coloured Crass.
Todavia, as promessas de Leonor não ficaram no olvido; pois eu ouvia os sons do balouçar dos turíbulos dos anjos; correntes dum sagrado perfume flutuavam permanentemente sobre o vale; nas horas ermas, quando meu coração palpitava pesadamente, os ventos que me refrescavam a fronte vinham carregados de brandos suspiros; indistintos murmúrios – oh, mas só uma vez! fui desperto de um sono, que se me afigurava o sono da morte, pela pressão de uns lábios espirituais sobre os meus.
Mas o vácuo dentro do meu coração recusava-se, ainda assim, a ser preenchido. Tinha saudades do amor que o enchera a transbordar. Por fim o vale fazia-me sofrer pelas recordações, e abandonei-o então para sempre, trocando-o pelas vaidades e pelos turbulentos triunfos do mundo.
Encontrei-me dentro duma estranha cidade, onde todas as coisas podiam ter servido para me apagaram da lembrança os doces sonhos que por tanto tempo sonhara no vale. O luxo e a pompa de uma corte majestosa, o doido clangor das armas e a radiosa beleza das mulheres desvairaram-me e embriagaram-me o cérebro. Até aqui, porém, ainda a minha alma permanecera fiel aos seus juramentos, e nas horas silentes da noite ainda até mim chegavam as revelações da presença de Leonor.
De súbito, cessaram estas manifestações; mundo escureceu de todo ante os meus olhos, e quedei-me espavorido ante o escaldante pensamento que me possuía – ante as terríveis tentações que me empolgavam; pois de muito longe, de uma terra distante e ignota, viera para a alegre corte do rei que eu servia, uma donzela a cuja beleza todo o meu perjuro coração imediatamente se rendeu – a cujos pés me curvei sem uma luta, no mais ardente, no mais abjeto culto de amor.
Que era, na verdade, a minha paixão pela adolescente do vale comparada com o fervor e o delírio, o alucinado êxtase de adoração com que eu depunha toda a minha alma em pranto aos pés da etérea Hermengarda? – Oh, que deslumbrante era a Angélica Hermengarda! E na minha alma para ninguém mais havia lugar. – Oh, que divina era a celestial Hermengarda! E quando eu sondava as profundezas dos olhos inolvidáveis, só neles pensava – só neles e nela!
Casei; não me arreceei da maldição que invocara; nem senti o amargor de haver infringido um juramento solene.
Mas uma vez, no silêncio da noite, chegaram até mim, através das minhas persianas, os brandos suspiros que havia muito eu já não ouvia e, numa voz familiar e doce, percebi estas palavras que jamais esquecerei:
- Dorme em paz! – pois o Espírito do Amor reina e governa e, acolhendo no teu apaixonado coração aquela que se chama Hermengarda, tu és absolvido, por motivos que só no céu serão explicados, dos juramentos que fizeste a Leonor!


 

Grafitagem - Oda Krew.

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