terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Para conhecer o Uberabense Cacaso...um ícone da poesia marginal

Há exatos 20 anos morria Cacaso, ícone da chamada poesia marginal brasileira da década de 1970. Em Textos Escolhidos, poemas, letras de música, ensaios, vida e obra. ( Leia completo)

Cacaso, um marginal transgressor
Gilfrancisco Santos
O poeta Charles, em artigo publicado no Jornal do Brasil, em 1986, disse que a "literatura marginal" escrita nos anos 70 está balizada por duas mortes: a de Torquato Neto ("e vivo tranqüilamente todas as horas do fim"), que marca o melancólico início, e a de Ana Cristina César ("Estou muito concentrada no meu pânico"), que chama a atenção para o gran finale de sua geração.
Nos anos de chumbo, período da ditadura militar instaurada a partir de 1964, surgiu uma geração de poetas que ficou conhecida pelo nome de "geração mimeógrafo" ou "geração marginal." Geração mimeógrafo pela característica de produzir suas obras: edições independentes, de baixo custo, comercializado em circuitos alternativos, gerada de mão em mãos – particularmente em bares e universidades. Nesse contexto de ditadura e desbunde é que surgiu o poeta Cacaso.
Antonio Carlos de Brito, ou Cacaso, nasceu em 13 de março de 1944, Uberaba (MG), professor universitário, letrista e poeta. Depois de viver no interior de São Paulo, mudou-se aos onze anos para o Rio de Janeiro, onde estudou Filosofia e, na década de 1970, lecionou Teoria da Literatura e Literatura Brasileira na PUC-RJ. Foi colaborador regular de revistas e jornais, como Opinião e Movimento, tendo, entre outros assuntos, defendido e teorizado acerca do cenário poético de seus contemporâneos, a geração mimeógrafo, criadores da dita poesia marginal, que ganhou publicidade com a antologia 26 Poetas Hoje, organizada por Heloisa Buarque de Holanda.
Como poeta estreou em 1967 com A Palavra Cerzida, livro ainda tímido mas dentro dos padrões literários do momento, que foi recebido com entusiasmo pelo crítico José Guilherme Merquior. Em 1974, lança Grupo Escolar (mostrando um poeta em busca de novos caminhos, identificado com o grupo) pela Coleção Frenesi, composta também dos livros Passatempo, de Francisco Alvim, Corações Veteranos, de Roberto Schwarz, Em busca do sete-estalo, de Geraldo Carneiro e Motor, de João Carlos Pádua. Cacaso une-se então a outros poetas, como Eudoro Augusto, Carlos Saldanha e Chacal, formando a coleção Vida de Artista, pela qual lançou Segunda Classe, 1975 (em parceria com Luiz Olavo Fontes) e Beijo na boca (1975), aos quais se seguiram Na Corda bamba (1978), Mar de mineiro (1982) e Beijo na boca e outros poemas que reunia toda obra até 1985.
Lero-lero, publicado em 2002 pelas editoras Cosac & Naify (SP) e 7 Letras (RJ) que se associaram para lançar o livro, primeiro título da coleção Ás de Colete. A edição de suas obras completas veio propiciar a recuperação do trabalho de um bom poeta que estava sendo injustamente esquecido. Lero-lero apresenta sua produção de trás para frente, à moda de João Cabral de Melo Neto em Museu de tudo, quer dizer, inicia com seu último livro Mar Mineiro e vai voltando no tempo até Palavra Cerzida, seu primeiro livro, para fechar com alguns poemas inéditos e dispersos. Traz ainda uma bibliografia subdividida em poesia, crítica, resenhas, artigos, ensaios, entrevistas e um brinde simpático: um exemplar, aos moldes da produção de época, do livrinho Na Corda Bamba, lançado originalmente no Rio de Janeiro em 1978.
Não quero Prosa, publicado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro/Ed. Unicamp, 1997, reorganizado e apresentado pela professora e escritora Vilma Arêas, que optou por substituir a cronologia pelo assunto, reúne boa parte de sua produção ensaística, selecionada e batizada pelo próprio autor, pouco antes de sua morte em 1987. Dividido em sete partes: Entrevistas; Bate-Papo sobre Poesia Marginal; Você sabe com quem está falando?; Literatura e Vida Literária; Pelo que me falaram; Lição dos Mestres; O Poeta dos outros.
O livro de ensaios demonstra agudo senso de análise ao se debruçar sobre a poesia brasileira, inclusive a sua contemporânea, inserindo-se, com isso, na linhagem moderna dos poetas-críticos. Cacaso revela através desses ensaios, como por exemplo: o engajamento político-literário que jurava fidelidade ao engajamento existencial.
Marginais ou Magistrais?
Cacaso era um poeta integral e um grande articulista da poesia marginal. Escrevia com humor e graça, seus ensaios nos surpreendiam. Fiel escudeiro em todas as situações: como poeta, como professor, como letrista, como amigo. O encontrei com os músicos Gereba e Fábio Paes, perdido nos sertões baianos, nos confins de Canudos, terra do beato Antônio Conselheiro, palco da guerra nos fins do século XIX. Foi justamente em outubro de 1987 durante a realização da Quarta Missa de Canudos – resistência do povo, noventa anos depois.
O escritor Roberto Schwarz, como bom caricaturista, pinçou bem os traços do nosso jovem poeta: "A estampa de Cacaso era rigorosamente 68: cabeludo, óculos John Lennon, sandálias, paletó vestido em cima de camisa de meia, sacola de couro. Nunca dele, entretanto, esses apetrechos de rebeldia vinham impregnados de outra conotação mais remota. Sendo um cavalheiro de masculinidade ostensiva, usava a sandália com meia soquete branca, exatamente como era obrigado no jardim-de-infância. A sua bolsa à tiracolo fazia pensar numa lancheira, o cabelo comprido lembrava a idade dos cachinhos, os óculos de vovó pareciam dele e o paletó, que emprestava um decoro meio duvidoso ao conjunto, também".
Já falecido há 20 anos, Cacaso não desapareceu do nosso panorama poético. Sua presença na década de 1970/1980 continua sendo uma forte referência para os poetas da geração 1980/1990. Cacaso tornou-se um dos ícones da poesia marginal, muito embora o rótulo não seja mais preciso para demarcar todas as camadas que se tornou o solo em que sua poesia floresceu. Antecipou o boom dos versos dos anos 90 (poetas-professores), que contribuiu para sinalizar características gerais dessa geração. Através dessa tendência, Cacaso soluciona no desenvolvimento de sua poética, equalizando as relações entre poesia e vida, cotidiano e linguagem, tradição e contemporaneidade, ao apontar para caminhos estilísticos diversos.
Sua obra possui uma outra característica comum à poesia dos anos 90, como bem demonstram as letras claras e inventivas de suas parcerias: Cacaso foi parceiro de Sueli Costa, Edu Lobo, Djavan, Francis Hime, Toquinho, Toninho Horta, Sivuca, Danilo Caymmi, Elton Medeiros, Nelson Ângelo, Joyce, Mauricio Tapajós e outros. Na verdade, os malditos sempre estiveram na corda bamba, partiram rápidos como a vida: Torquato Neto, Tite de Lemos, Ana Cristina César, Paulo Leminski, Waly Salomão. Cacaso faleceu no Rio de Janeiro em 27 de dezembro de 1987, aos 43 anos, vítima de um enfarte.
Publicado originalmente em www.revistaetcetera.com.br)
Sobre o autor : Gilfrancisco é jornalista, escritor, pesquisador e professor universitário. Publicou, dentre outros livros, " Gregório de Mattos o boca de todos os santos", e " Crônicas e poemas escolhidos de Sosígenes Costa.


Nenhum comentário:

Postar um comentário