sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

um pouco do cronista e escritor Julio Cesar Pereira.

O boiadeiro que foi para o sul
O céu apresentava uma coloração cinzenta do amanhecer, e, no alto do morro do Zagaia, ainda havia relampejos do dia, quando ele chegou. O rosto era metade imóvel, petrificado... a outra metade apresentava nos lábios uma leve contorção que parecia um meio sorriso. O rosto ainda sem barbas devido a pouca idade. Nos lábios o cigarro estava no fim e não fora sequer ao menos uma vez tocado com as mãos. O semblante tinha aspecto bronze, que contrastava com o chapéu opaco. O terno estava em uma das mãos. Havia uma ingenuidade combinada com franqueza que era cortante. A camisa e a calça em suave harmonia. Tinha as barras das calças salpicados de barro. O sapato estava enlameado. Andara. Parou diante do poste e observou. O Zagaia parecia um enorme animal que emitia entre sussurros e choro de criança, um ruído peculiar. Um silvo de três toques. Coruja? Caga-sebo?
Não...era a boiada, saindo da porteira do cercadinho subindo para a baixada. E foi neste dia que ele voltou. Matusalém, o menino Tutim. Havia ido levar a boiada para o estado de São Paulo e realizar o sonho de montar em boi bravo em Barretos. O boiadeiro que foi para o sul. Mas as fortes presenças da espiritualidade dos ternos de Moçambique o buscaram. Era comum em sua família. Voltara para, juntamente com o “Vô Santana”, liderar as manifestações dos ternos de Moçambique pela cidade. Afilhado de fogueira do mestre calceteiro, Temistocles Rufino. Juntamente com o amigo “Mandino” liderou gerações de Moçambiqueiro na coroação da rainha “Xinga”, era proibido... Mas faziam assim mesmo... Escondido. Mas o boiadeiro voltara do sul por motivos mais nobres. Juntamente com os mesmos amigos dos ternos eles fundaram também um clube. Viera para comprar as bases sólidas de uma edificação que estava nas suas idealizações e muito pouco em suas mãos. Mas eles, vitoriosos, compraram o terreno que hoje leva o nome de XIII de Maio Futebol Clube.
O boiadeiro voltara do sul, de Barretos, largara as boiadas. Os protuberantes ossos da face e a voz grossa e firme estavam de volta. Foi assim que Matuzalém Ferreira voltou das comitivas, do sonho de ser montador em rodeios.
A tarde caía, caindo, o céu estava azul cinzento e o lusco-fusco parecia anunciar que o dia acabara. E lá estava o rapaz, de novo olhando para as entranhas do Zagaia. O monstro com seus pares de olhos, enegrecidos pela fumaça da cerâmica Batista, o cheiro de almeirão bravo do Borá invadindo suas narinas e sufocando; o boiadeiro que foi para o sul resolveu voltar...
(*)Julio César Pereira é Sociólogo, escritor entre outros de “Sobre Melros pássaros-pretos e borboletas”.

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