sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

A poesia marginal de Diego Morae...nos mostra que a poesia marginal ainda nos eleva a quinta potência. Só alguem que viveu nas ruas de São Paulo pode nos dar essa sensação...

Diego Moraes


Diego Moraes é um escritor brasileiro, nascido em Manaus, Amazonas, a 23 de agosto de 1982. É autor do livro de contos A fotografia do meu antigo amor dançando tango (2012) e da coletânea de poemas A solidão é um deus bêbado dando ré num trator (2013), ambos lançados pela Editora Bartlebee.

Os dois primeiros poemas abaixo são inéditos, seguidos de alguns textos selecionados de seu último livro. Encerro a postagem com um conto de A fotografia do meu antigo amor dançando tango (2012). Diego Moraes vive e trabalha em Manaus.

--- Ricardo Domeneck

§

POEMAS DE DIEGO MORAES

Inéditos


Repare bem
O amor é paranormal
Quando ela cuspiu na sua cara e disse que tudo havia acabado
Os talheres entortaram e a prataria do seu avô enferrujou
Agora vai lá na cozinha e chora escutando Dolores Duran
        [no radinho de pilha.

§

Mergulhar
Nesta
Pororoquinha
Que
Você
Teima
Chamar
De
Antologia
De
Suas
Melhores
Recaídas.
Secar
Tuas
Camisetas
De
Bandinhas
Death Metal
No
Ventilador Arno
 “Bota no volume máximo!”
Você
Grita
Enquanto
Walt Whitman
Descansa
De
Bruços
Num
Gramado
Dentro
Dos
Sonhos
De
Roberto Piva.

§

De  A solidão é um deus bêbado dando ré num trator (2013)



Você disse que sonhos é como fazer musculação
Você disse que Vou à Bahia leva crase
Você disse que queria adotar um cachorrinho e fazer Teatro
         [de Rua em São Paulo
Você disse que Roberto Piva era o poeta mais lindo do mundo
Você disse tantas coisas bacanas quando eu tava fudido
Você disse que eu sairia dessa e levou livros e cigarros quando
         [eu tava internado naquela clinica para drogados
Você foi minha garota e foi foda ver seu sorriso de mãos dadas
         [com outro cara
Sempre fico sem jeito com o meu passado
Nessas horas eu queria ser invisível ou ter asas.

§

Bússolas quebradas
Cartas anônimas nunca me disseram nada
Isso não é literatura. É só minha dívida no Bradesco.

§

Você não deveria estar aqui
Seu namorado tá lá fora fumando Lucky Strike e ouvindo
      [uma canção do Jeff Buckley no rádio de um cadilac
      [que nunca foi dele
Você não deveria estar aqui
O que tínhamos pra conversar virou aquele roxo que a
      [madrugada perdoa
O que tínhamos pra conversar virou aquelas bolinhas de
      [luz que vão ficando para trás quando o taxista passa
      [a quarta marcha e olha pelo retrovisor
Você não deveria estar aqui
Daqui nove meses uma criança nasce com meu nome
Daqui nove anos vai lembrar que eu poderia ter sido
      [o melhor para sua vida
Daqui vinte anos vai lembrar que seu garoto parece comigo
      [e seria lindo sair num final de semana para pescar ou
      [visitar os amigos
Você não deveria estar aqui
Fecha a porta e me esquece
Deixa-me adubar o tédio.

§

O amor anda de ônibus.

§

Talvez eu seja o único cara andando a pé do centro a nova
      [cidade
Recolhendo restos de coisas do século passado e transformando
      [em livros
Chorando, ouvindo aquela canção do Neil Young da boca de
      [um mendigo.

§

Rejuvenescer
Tornar-se loirinho fazendo caretas na fazenda
Tacando pedras
Correndo atrás dos bichos com apelidos dados na inocência da
       [infância
Amadurecer lentamente como fruta fora da fruteira
Iludir-se
Inventar amores distantes só pra dedicar ternuras pela internet
Poesia: enfeite para o fundo do mar.

§

Ela havia me falado do tio que escrevia poemas e morreu
     [atropelado em Mairiporã
Da linha invisível que protege a cidade de incêndios
De como era bom tingir os cabelos e sentir a brisa poderosa
     [de domingo
Quando o amor aparece
Não adianta buscar uma sombra
É sol sem guarda-chuva.

§

Não fiz geografia na UFRG
Nem sei o que significa la niña, mas quando você não está
        [colada ao meu casaco, sempre faz 9 graus abaixo de zero.

§

Charles Bronson não pedia desculpas.

§

Conto do livro A fotografia do meu antigo amor dançando tango (2012)

O cara abandona a carreira literária pra virar satanás 

- Quando raspo a cabeça fico apocalíptico. Dá até umas trovoadas.
- Olhos azuis de zumbi. Ela perdeu uns dentes. Engordou. Não curte mais jazz e vive de boca torta.
- Ainda bem que ela deu o fora senão eu ia enforcá-la. Goteira na fotografia do meu antigo amor dançando tango. O vizinho tossindo. Uma pazada nas costas espalhando girassóis.
- Ela me fudeu em Sampa. Entrou numas de que eu era veado e confundiu minhas hemorróidas com flor de pederastia e me abanou pro frio de 6 graus.
- São Paulo. São Paulo. Vou poupar 39 folhas de um possível conto só pra dizer que São Paulo é apenas um Freezer do tamanho de Saturno. Valeu?
- Daí eu lancei um livro de contos que ninguém leu.
- Se eu fosse tu parava com essa onda de literatura. Acho que foi essa porra que fudeu teu baço.
- Escrever demais dá pedra nos rins. Entramos num pub repleto de Roqueiros fedorentos e poetas de pau mole. Uma vadia cantava Legião e acabei vomitando dentro de um aquário.
- Não tô legal, Fred. – Eu disse vendo estrelas.
- Odeio quando tu confundes as bolas e cheira como anta. – disse Álvaro.
- Não é cocaína. É a vida, meu Brother.
- O que achaste do “A.S.A – Associação dos solitários anônimos”?
- Phoda. Rosário Fusco é Phoda. Grande livro.
- E o Romance?
- Mandei pra umas editoras. E depois já era. Vou parar de sangrar. Palavras bóiam por um tempo e depois afundam como navios furados.
- O cara abandona a carreira literária pra virar satanás. – Álvaro tragou fundo e depois riu salteando dentes podres.
- Literatura é uma puta muito escrota. Se você demonstra afeto demais ela acaba te fudendo.
O céu medíocre estava mais azul que o habitual. Antes de dobrarmos a Avenida Getúlio Vargas um pássaro caiu morto nos nossos pés.

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