A maior parte do público conhece Leonard Cohen por sua produção musical; outros, em menor número, o associam a sua poesia. De fato, Cohen é um artista plural e talentoso. Ao longo de uma carreira de sucesso, o canadense buscou diferentes expressões para seu gênio. O início de sua trajetória, na década de 1950, se deu com a publicação de poemas — Cohen tinha então pouco mais de 20 anos, e fora influenciado, na universidade, por leituras de Federico Garcia Lorca, Henry James, William Yeats e Henry Miller.
Estas influências iriam, posteriormente, ter um peso considerável na sua aventura pela ficção, como comprovado em A brincadeira favorita — originalmente lançado em 1963, mas que só agora, através da Cosac Naify, ganha uma tradução para o português (Alexandre Barbosa de Souza).Há muito de Cohen no protagonista Lawrence Breavman. Por acompanhar o personagem desde a infância, por construí-lo com convicção e delineá-lo com rigor, é possível considerar A brincadeira favorita como um romance de formação, um Bildungsroman. No entanto, como Lawrence flerta com a escrita e com a música, é possível recorrer a uma definição mais precisa: a de Künstlerroman — o que significa que estamos diante de uma obra que mostra, desde os primeiros anos e das primeiras um peso considerável formação de um artista.
Cohen é um escritor hábil, tão à vontade com a prosa quanto esteve, durante sua longa carreira, com os versos e com a música. Sua escrita é gostosa e envolvente: as palavras flutuam e são levadas por uma corrente de melancolia, ainda que, sem perder a convicção ou entrar em contradição, Cohen lance mão de doses de um humor impagável e delicioso. O autor brinca com a voz que narra a vida — e os arredores da vida — de Breavman: ora aproxima, ora afasta o olhar que põe sobre o protagonista e sobre aqueles que compartilharam de sua existência, pondo o foco ora sobre um, ora sobre o outro.
Breavman tem em comum com Cohen o próprio local de nascimento: Westmount, em Montreal, Canadá. Descendente de uma importante família de judeus, pertencente à classe média alta, Breavman tem ao mesmo tempo uma infância privilegiada e alegre e perturbadora. Seu pai, inválido após a guerra, é colocado (ou antes coloca-se deliberadamente) à parte dos parentes: o próprio físico do homem — seu corpo acima do peso que jazia em uma cama — difere do dos irmãos, descritos como magros e altos. Breavman sente essa diferença, e, a seu modo, também cria uma distância dos tios, não concebendo pontos em comum entre eles. O menino cresce em meio aos relatos da Segunda Guerra mundial: os prisioneiros torturados e os soldados que partem para o combate estão presentes nas conversas e nas brincadeiras da criança. Algumas dessas brincadeiras envolvem o contato físico com o sexo oposto, que mesclam sensualidade precoce e a inocência própria da idade e do meio em que fora criado. Lisa é quem descobre com Breavman os encantos do corpo alheio.
Os contatos com o feminino, aliás, fascinam e perturbam Breavman na mesma medida. Cada uma das paixões do personagem deixou nele alguma marca: Lisa, Tamara, Shell e Wanda foram responsáveis por mudanças — ora sutis, ora rapidamente perceptíveis —, e pelo amadurecimento de Breavman. Estas marcas são transformadas em profundas (porém breves) divagações e associações, e são responsáveis por boa parte do emprego do tom onírico da narrativa. Parece curioso que seus enlaces lhe perturbem em tal grau, já que Breavman, tanto quanto possível, interessa-se pelo que ele pode sentir em companhia de cada uma delas, e pela sua visão de uma mulher, sem fixar seu interesse, seu afeto e sua devoção em uma figura de carne e osso, mas a uma ideia preconcebida que faz de suas amantes.
A relação do protagonista com a mãe é conturbada — a própria figura materna de Lawrence Breavman ratifica o mito da mãe judia, eternamente lacrimosa e superprotetora, chantagista e carente de afeto. Breavman se desvia dela, voluntária ou involuntariamente, ao sair de casa depois de ingressar na universidade.
O melhor amigo de Breavman é Krantz, nascido no mesmo bairro e mesma cidade. Os dois estão lado a lado desde os seus primeiros anos — juntos, descobrem as maravilhas do corpo feminino, dão longos passeios de carro por Montreal e arredores (para refletir, para se sentir livres, para se sentir deslocados do tempo), fazem confidências, crescem. Quando se muda de Montreal, Krantz expressa com uma frase singular a amizade dos dois — taciturna e indulgente do lado de Krantz, falante e quase desesperada por parte de Breavman: “A gente precisa parar de interpretar o mundo um para o outro”.
O romance de Cohen não é linear. Começa com pequenos parágrafos curtos, fragmentos de cenas e de memórias, e depois se equilibra e se firma em uma narrativa concreta e maciça, mas nem por isso menos onírica. A vida de Breavman, outrora um menino espevitado e curioso, é transformada (ou ele a transforma?) em uma confusão e em uma melancolia que não raro são próprios do artista adulto. O leitor descobre, ao se enredar nas páginas e na existência do protagonista, muito sobre o próprio gênio de Cohen. Mais do que qualquer coisa, o leitor nota uma prosa deliciosa, cheia de passagens memoráveis — daquelas dignas de serem destacadas, anotadas, lembradas.
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