Sons pubescentes.
Corriam, eles corriam muito.
Tenras têmporas pulsavam em virtude do esforço. As panturrilhas duras. Pés descalços, pernas cabeludas ao contrário de buços macios exalando um cheiro menos infantil.
Planejaram tudo. Levariam revistas, refrigerantes e o tapume cor de laranja do banco de trás do velho fusca na garagem empoeirada.
Ouve-se um toque de telefone celular. O coração quase pula pela boca. Quem seria nesta hora? Sem o ligar, apenas colocam suas faces em frente aquela pequena tela refletindo a imagem azulada. Metálica. Os rostos colam-se. Um só olhar quadruplicado e comiserado aparece em frente a faces imprecisas.
Deixaram-se levar contemplativos para a vista que dava de frente para uma movimentada rodovia que findava em paisagens que eles mesmos nunca iriam conhecer tal era sua inocência.
As mãos estavam entrelaçadas, sentindo a ternura ressentida e silenciosa que não explicava porque nutriam tanta amizade um pelo outro.
Nesta tarde de setembro o sol deixava tudo muito seco. Os pelos do tornozelo dele grudaram na colcha de chenile; tal era o calor. Em meio a uma paisagem seca. Com uma vegetação retorcida e amarelada. Mas a serenidade companheira daqueles que sabiam o que foram procurar ali imperava. E produziram sons pubescente enquanto corpos siameses tateavam-se unidos por um desejo falocrático. Buços quase infantis cruzam-se num tocar suave se não fosse roto. Enquanto escorre pelas mãos a certeza de que nutriam muito mais que amizade.
Na "Batista".
- Ah! Ele me paga! Jurava ela. Empurrando uma bicicleta Caloi vermelha. Ladeada por dois filhos pequenos. Dois meninos pretinhos, abrindo caminho juntamente com a boiada que descia, como fazia todos os dias, crepitando os paralelepípedos da Inconfidentes. Rua maldita de onde ontem ela entrou em sua casa dando o ultimato ao companheiro que nunca seria seu marido. Homem que a buscou lá no estado de São Paulo, que jurou que ela teria vida de rainha e uma soma em valores mensais. Ela, os meninos e a Caloi vermelha. Rasgaram as encostas das serras na vertente da "Baixada" de lá onde podia ver os restos mortais da cerâmica. Vislumbrando aquele monumento imenso que a muito tempo não soltava mais chama. Uma enorme construção que apontava diretamente para o céu. Cinza naquele dia. Avaliou a riqueza da terra. Puro salmourão, testemunhado pela gigantesca chaminé, ladeado por mangueiras que exibiam desde a grossura dos troncos até as frondosas copas verdes a alcançarem o céu cinza daquele dia, no aprumo do cerne por onde sorviam a seiva sugada por suas profundas raízes.
- Vou para a "Batista"! Disse alto com jubilo ao companheiro que nunca seria marido. Lá é a terra dos meus sonhos, a minha promessa de fertilidade. Orgasmo das minhas noites. Deitarei naquele lugar minha semente e com volúpia comerei dos seus frutos. Ah! Fartura! Sorria ela.
Mas ela ruminando o seu ódio e sua desilusão, cortou-lhe as asas ambiciosas, desfazendo aquele amasiamento que lhe permitiria uma vida sem fronteiras.
- Não quer se casar! Não terá meu corpo.
Assim se vingava ela, desenrolando o novelo de amargura da sua vida.
Ela empurrava a sua Caloi vermelha. Na garupa lenços de seda, importados da Europa que um dia adornara a sua cabeça, atado ao queixo, disfarçando a mancha escura que lhe marcava parte do rosto.
Afastara muitos pretendentes para morar na Inconfidentes. Naquele lugar amargara os seus desejos em noites desperdiçadas, em sonhos que se desfaziam. O último que tivera, fora com o companheiro. Sonhara se casar com ele como vinha implorando nos últimos dois anos. Perdera a esperança, mas não perdera a garra. Ei lá agora se mudando para a "Batista". Um lugar esquecido. Para tomar posse das terras que já eram suas. E lá ia ela, com sua carga, sua fartura, seus pertences, seu conforto, conduzidos na garupa de uma bicicleta vermelha, tilintando suas raias enferrujadas. Levas de dois meninos acompanhando o trole de todo alto. Plastiquinhos coloridos no guidão e para-barro de borracha na traseira. Uma sombrinha para se proteger da chuva...o céu estava cinza. As crianças agarradas as suas saias.
- Não queremos padrasto!
Pedras e pedras de paralelepípedos, rumo ao novo destino. Subia agora aquele comprido cordão humano de coragem, pelos estaleiros esquecidos da cerâmica. Caminhos ondulantes, trilhos que dão em nada. De repente, a trilha ficou larga, abatidas árvores por suas margens, faziam agora uma clareira. Mais um pouco, um bosque denso de palmitos nativos, abundância de água e algumas construções carcomidas pelo tempo. Lá no fundo a casa azul e sempre pequenina no meio do pasto. De onde ela estava via bem a casa da Maria Pipoca. Uma mancha caiada de azul no meio do pasto.
Havia naquelas pequenas casas uma que podia ser habitada. Parou o longo cortejo. Acomodou-se como puderam. As crianças levaram a comida em pequenos embornais amarrado nos ombros. E olhavam atônitos para a nova vida. Instalaram-se ali.
Uma noite, quando as crianças dormiam, saiu para o bosque de coqueiros e palmitos que circundavam a casa, onde o córrego cantava suas águas. Ela prateou-se do luar que delineava a mata. Encarou o céu de estrelas cintilantes. Dançou a música das árvores. Apaixonada pela natureza... Desatou o lenço que escondia a mancha arroxeada que tão violentamente foi colocada em seu rosto...em sua vida. Expôs-se à beleza da noite.
Sentiu se deslumbrante!
Afagou o lenço em suas mãos, atirou-o no córrego que formava pequenas cascatas. Ergueu os braços para o céu numa oferta de oração.
- Nunca mais sairei daqui. Estou livre!
Sons pubescentes.
Corriam, eles corriam muito.
Tenras têmporas pulsavam em virtude do esforço. As panturrilhas duras. Pés descalços, pernas cabeludas ao contrário de buços macios exalando um cheiro menos infantil.
Planejaram tudo. Levariam revistas, refrigerantes e o tapume cor de laranja do banco de trás do velho fusca na garagem empoeirada.
Ouve-se um toque de telefone celular. O coração quase pula pela boca. Quem seria nesta hora? Sem o ligar, apenas colocam suas faces em frente aquela pequena tela refletindo a imagem azulada. Metálica. Os rostos colam-se. Um só olhar quadruplicado e comiserado aparece em frente a faces imprecisas.
Deixaram-se levar contemplativos para a vista que dava de frente para uma movimentada rodovia que findava em paisagens que eles mesmos nunca iriam conhecer tal era sua inocência.
As mãos estavam entrelaçadas, sentindo a ternura ressentida e silenciosa que não explicava porque nutriam tanta amizade um pelo outro.
Nesta tarde de setembro o sol deixava tudo muito seco. Os pelos do tornozelo dele grudaram na colcha de chenile; tal era o calor. Em meio a uma paisagem seca. Com uma vegetação retorcida e amarelada. Mas a serenidade companheira daqueles que sabiam o que foram procurar ali imperava. E produziram sons pubescente enquanto corpos siameses tateavam-se unidos por um desejo falocrático. Buços quase infantis cruzam-se num tocar suave se não fosse roto. Enquanto escorre pelas mãos a certeza de que nutriam muito mais que amizade.
Julio Cesar Pereira. Autor entre outros de" Urbanejar" 2004.
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