segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Mais um conto premiado - De fácil leitura

José Paletó.

O céu apresentava uma coloração cinzenta de fim de tarde, e no alto do morro do Zagaia ainda havia relampejos do dia, quando ele chegou.
O rosto era metade imóvel, petrificado a outra metade apresentava nos lábios uma leve contorção que parecia um meio sorriso.
Nos lábios o cigarro estava no fim e não fora sequer ao menos uma vez tocado com as mãos. 
O semblante tinha aspecto bronze, que contrastava com o chapéu opaco.
O terno estava em uma das mãos.
A camisa e a calça em suave harmonia. Tinha as barras das calças salpicados de barro.
O sapato estava enlameado. Andara. Parou diante do poste e observou.
O Zagaia parecia um enorme animal que emitia entre sussurros e choro de criança um ruído peculiar. Um silvo de três toques.
Coruja?
Caga-sebo?
Zé mulato?
Do lado oposto da viela estava estático o outro. Permanecera por uma hora.
- O que tem ai embaixo do terno? Um revolver?
 Não posso ficar preso por muito tempo!
Uma prostituta acompanha com olhares de fome os dois.
Vem neném!
Tenho um livro!
Então é professor? Caminham até o barraco, as mães estavam esperando, arrumando a mesa com aquele olhar que as mulheres têm quando põem a mesa. Fórmica azul. O pai ficara surdo depois cego. Um sentido. O pedaço de carne preso à boca foi retirado com singular ato de quem tem esperança, ainda que morta. O pai retira-se com passos trôpegos. A comida estava fria, os dois comem em silêncio. O ruído lá fora agora é maior.
- Vou contar pro Zenga, o que você faz com suas visitas! Cafajeste!
Parecia que o tempo não alterava a rotina, pois sempre ao cair da tarde era igual no Zagaia, o mesmo esgoto o mesmo cheiro que invadia o ruminar do monstro que vomitava gente de todos os lados e ângulos.  Sei me cuidar, pensava! Já vira na infância dois irmãos morrerem afogados no “Borá”. Meio metro na cintura. Desespero. Afogados e abraçados pela fome!
Pai como é o natal!
Cala a boca moleque!  Dá sossego!
Foram engolidos por aquilo que chamava azar. O pai vendo a foice pendurada no alto do arbusto puxou com força, cortou um galho e correu.
Os dois tinham os olhos bem abertos. Como súplica no santuário. Besteira, pensar nisto agora. Faz tanto tempo...Assim como entraram no barraco, saíram em silencio e tateando no escuro denso da viela.
Beber cachaça!
Uma!
Duas!
Zé Paletó!    
Um olhar de desconfiança invadiu o balcão carcomido.
Cortina vermelha.
Preciso trabalhar, cheguei ontem.
Aqui é diferente!
Vejo o movimento, quanta gente!
Os dois não queriam, mas estavam juntos, a necessidade de um entrelaçada com a indiferença do outro.
O ávido e pudico com o supérfluo sendo absorvidos pelo ralo do que se imagina ser frio e perene.
Vamos!
Amanhã é sexta-feira, vai ter sorteio.
O fim daquilo que se pode chamar rua, ficava perto do aterro.
O estranho estava cansado!
A manhã estava encoberta pelo nevoeiro!
Coisa besta!
Molha, esfria e não chove!
Tomar o trem, ser deixado levar pelo mesmo ato maquinal. A moça de olhos pretos e cabelos em desalinho entrara. Com seus sapatos rosados, vestido bem acentado.
Paixão!
Rosa!
A infância voltava à tona novamente, pés descalços, tornozelos finos. Molecagem!
- João orelha podre, vai lavar com arnica estas orelhas! Não queria, juro que não queria, foi maldade, fazer o gato engolir aquela bolinha colorida!
Chacoalhão, moça pretejante, flerte!
Pretendente.
O caminho era o mesmo, vagalhão, o sol aos poucos ia descortinando a noite de forma abrupta e rompendo o nevoeiro.
O flamboyant já tinha perdido metade das folhas.
Apito.
Zé Paletó chegara cedo.
- Hoje tem limpeza no pátio, falou!
Varrição, pó, sabão!
Eram mais que formas espalhadas por aquele imenso pátio, eram vestígios que se arrastam de dentro do furor da miséria e se lançam no espaço-tempo.
O moço quer trabalho?
Mãos finas sei não?
Vou ver!
Andar sem sentir a necessidade de comer, ainda latente.
Desde cedo aprendeu a passar fome, aquela bolha vazia por dentro indo e vindo. Ora como dor, ora como ânsia.
Vamos moleque!
Não fica ai parado feito mula empacada!
A terra se mistura com a campina agreste e o pó grudava na pele e na alma.
O feijão boiando no caldo ralo da panela parecia que pedia socorro!
- Reparte com o teu irmão. Com o passar dos anos adquirira um andar que tinha algo de fidalguia.
Herança francesa?
As mãos com veias salientes.
Torniquete!
O corpo esbelto e esguio desafiava e contrastava com a paisagem.
Fora feito e talhado para encarar e escancarar a vida.
Com quinze disse a mãe:
- Vou embora! Não havia fraqueza na sua voz.
Seis irmãos deixados.
Vento!
A mãe não disse nada, foi feita para aceitar.
Os olhos pareciam duas bolas de bilhar, negros e misteriosos!
Aprendeu a ler sozinha.
Recortes de jornal!
Voltar de trem, ver de novo os letreiros das lojas.
Diversão eletrônica!
O estranho tinha conseguido fazer amizade.
Zé Paletó.
A tarde caía, caindo, o céu estava azul cinzento e o lusco-fusco parecia anunciar que o dia acabara.
Cacoalhão!
Lá estava de novo o monstro com seus pares de olhos, enegrecidos, o cheiro invadindo as narinas e sufocando.
Tarde.
O pai parecia ver o estranho.
Deu certo, começo amanhã!
Venha comigo se quer ver o outro lado do Zagaia.
Saem deixando para trás o barraco.
Quer fumar?
Não.
Podia fazer o tempo que fosse chover fazer sol, que o terno era usado sempre. Desde que veio da roça, disse para si mesmo: um homem tem que se vestir de forma correta.
Estrondo!
Dinamite.
Pedreira.
Pai quando você morrer posso ficar com as botas?
Silêncio.
Havia uma ingenuidade combinada com franqueza que era cortante.
- Moleque, vai pegar água para mim.
Os olhos buscavam a botija.
Quando era para a criação trazia com pau trançado em volta do pescoço e um balde em cada lado.
O sino tocou longe.  




Julio Cesar Pereira. Autor entre outros de” Urbanejar” 2004.







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