José
Paletó.
O céu apresentava uma
coloração cinzenta de fim de tarde, e no alto do morro do Zagaia ainda havia
relampejos do dia, quando ele chegou.
O rosto era metade imóvel, petrificado
a outra metade apresentava nos lábios uma leve contorção que parecia um meio
sorriso.
Nos lábios o cigarro estava no fim e
não fora sequer ao menos uma vez tocado com as mãos.
O semblante tinha aspecto bronze, que contrastava
com o chapéu opaco.
O terno estava em uma das mãos.
A camisa e a calça em suave harmonia.
Tinha as barras das calças salpicados de barro.
O sapato estava enlameado. Andara.
Parou diante do poste e observou.
O Zagaia parecia um enorme animal que
emitia entre sussurros e choro de criança um ruído peculiar. Um silvo de três
toques.
Coruja?
Caga-sebo?
Zé mulato?
Do lado oposto da viela estava
estático o outro. Permanecera por uma hora.
- O que tem ai embaixo do terno? Um
revolver?
Não posso ficar preso por muito tempo!
Uma prostituta acompanha com olhares
de fome os dois.
Vem neném!
Tenho um livro!
Então é professor? Caminham até o
barraco, as mães estavam esperando, arrumando a mesa com aquele olhar que as
mulheres têm quando põem a mesa. Fórmica azul. O pai ficara surdo depois cego.
Um sentido. O pedaço de carne preso à boca foi retirado com singular ato de
quem tem esperança, ainda que morta. O pai retira-se com passos trôpegos. A
comida estava fria, os dois comem em silêncio. O ruído lá fora agora é maior.
- Vou contar pro Zenga, o que você faz
com suas visitas! Cafajeste!
Parecia que o tempo não alterava a
rotina, pois sempre ao cair da tarde era igual no Zagaia, o mesmo esgoto o
mesmo cheiro que invadia o ruminar do monstro que vomitava gente de todos os
lados e ângulos. Sei me cuidar, pensava!
Já vira na infância dois irmãos morrerem afogados no “Borá”. Meio metro na
cintura. Desespero. Afogados e abraçados pela fome!
Pai como é o natal!
Cala a boca moleque! Dá sossego!
Foram engolidos por aquilo que chamava
azar. O pai vendo a foice pendurada no alto do arbusto puxou com força, cortou
um galho e correu.
Os dois tinham os olhos bem abertos.
Como súplica no santuário. Besteira, pensar nisto agora. Faz tanto
tempo...Assim como entraram no barraco, saíram em silencio e tateando no escuro
denso da viela.
Beber cachaça!
Uma!
Duas!
Zé Paletó!
Um olhar de desconfiança invadiu o
balcão carcomido.
Cortina vermelha.
Preciso trabalhar, cheguei ontem.
Aqui é diferente!
Vejo o movimento, quanta gente!
Os dois não queriam, mas estavam
juntos, a necessidade de um entrelaçada com a indiferença do outro.
O ávido e pudico com o supérfluo sendo
absorvidos pelo ralo do que se imagina ser frio e perene.
Vamos!
Amanhã é sexta-feira, vai ter sorteio.
O fim daquilo que se pode chamar rua,
ficava perto do aterro.
O estranho estava cansado!
A manhã estava encoberta pelo
nevoeiro!
Coisa besta!
Molha, esfria e não chove!
Tomar o trem, ser deixado levar pelo
mesmo ato maquinal. A moça de olhos pretos e cabelos em desalinho entrara. Com
seus sapatos rosados, vestido bem acentado.
Paixão!
Rosa!
A infância voltava à tona novamente,
pés descalços, tornozelos finos. Molecagem!
- João orelha podre, vai lavar com
arnica estas orelhas! Não queria, juro que não queria, foi maldade, fazer o
gato engolir aquela bolinha colorida!
Chacoalhão, moça pretejante, flerte!
Pretendente.
O caminho era o mesmo, vagalhão, o sol
aos poucos ia descortinando a noite de forma abrupta e rompendo o nevoeiro.
O flamboyant já tinha perdido metade
das folhas.
Apito.
Zé Paletó chegara cedo.
- Hoje tem limpeza no pátio, falou!
Varrição, pó, sabão!
Eram mais que formas espalhadas por
aquele imenso pátio, eram vestígios que se arrastam de dentro do furor da
miséria e se lançam no espaço-tempo.
O moço quer trabalho?
Mãos finas sei não?
Vou ver!
Andar sem sentir a necessidade de
comer, ainda latente.
Desde cedo aprendeu a passar fome,
aquela bolha vazia por dentro indo e vindo. Ora como dor, ora como ânsia.
Vamos moleque!
Não fica ai parado feito mula
empacada!
A terra se mistura com a campina
agreste e o pó grudava na pele e na alma.
O feijão boiando no caldo ralo da
panela parecia que pedia socorro!
- Reparte com o teu irmão. Com o
passar dos anos adquirira um andar que tinha algo de fidalguia.
Herança francesa?
As mãos com veias salientes.
Torniquete!
O corpo esbelto e esguio desafiava e
contrastava com a paisagem.
Fora feito e talhado para encarar e
escancarar a vida.
Com quinze disse a mãe:
- Vou embora! Não havia fraqueza na
sua voz.
Seis irmãos deixados.
Vento!
A mãe não disse nada, foi feita para
aceitar.
Os olhos pareciam duas bolas de
bilhar, negros e misteriosos!
Aprendeu a ler sozinha.
Recortes de jornal!
Voltar de trem, ver de novo os
letreiros das lojas.
Diversão eletrônica!
O estranho tinha conseguido fazer
amizade.
Zé Paletó.
A tarde caía, caindo, o céu estava
azul cinzento e o lusco-fusco parecia anunciar que o dia acabara.
Cacoalhão!
Lá estava de novo o monstro com seus
pares de olhos, enegrecidos, o cheiro invadindo as narinas e sufocando.
Tarde.
O pai parecia ver o estranho.
Deu certo, começo amanhã!
Venha comigo se quer ver o outro lado
do Zagaia.
Saem deixando para trás o barraco.
Quer fumar?
Não.
Podia fazer o tempo que fosse chover
fazer sol, que o terno era usado sempre. Desde que veio da roça, disse para si
mesmo: um homem tem que se vestir de forma correta.
Estrondo!
Dinamite.
Pedreira.
Pai quando você morrer posso ficar com
as botas?
Silêncio.
Havia uma ingenuidade combinada com
franqueza que era cortante.
- Moleque, vai pegar água para mim.
Os olhos buscavam a botija.
Quando era para a criação trazia com
pau trançado em volta do pescoço e um balde em cada lado.
O sino tocou longe.
Julio Cesar Pereira. Autor entre
outros de” Urbanejar” 2004.
Nenhum comentário:
Postar um comentário